Meia Noite

Capitulo 6 

 

Acordei em um quarto pequeno, com as janelas tampadas com madeira, impedindo a luz do Sol de entrar pelo vidro incolor. Cada centímetro de meu corpo doía. Não só meu corpo, mas um nome vagava em minha mente. Jesse. Como um golpe, todas as lembranças vieram à tona, e senti um bolo formando-se em minha garganta. Eu iria morrer ali. Iria definhar até a morte naquele quarto pequeno e quase sem iluminação. Eu nunca sairia daquele lugar empesteado de Marcados. Iriam me transformar em uma fornecedora, uma prostituta de sangue, uma Marcada. Eu estava presa aquilo. Apesar de não sentir mais nada, sabia o que era necessário fazer. A ultima conversa que tive com Ben na floresta trouxe-me uma solução. “Eu não gostaria de ser pego pela Corte ou pelos Marcados. Preferia morrer a ser pego por eles” dissera ele. E até nisso eu havia falhado. Provavelmente Ben estava morto agora, com certeza haviam sugado seu sangue até a ultima gota. Vasculhei o quarto na esperança de algum objeto que pudesse provocar minha morte. Não havia nada ali. Tremi, embora não estivesse com frio. Tudo parecia escuro e gélido demais. Atirei-me no chão, sem me importar com o impacto do piso frio em minha face. Nada mais importava. Nada mais importava havia eras, e eu sabia disso. Sabia disso mais do que ninguém, embora não pensasse a respeito. Então fiquei ali, estirada no chão, fitando o teto. Provavelmente teria ficado ali por dias, talvez semanas. Pulei quando ouvi um barulho perto da porta. Ela se abriu subitamente, e algo foi jogado através dela. A porta fechou-se um segundo depois, e eu continuara ali, em estado vegetativo. Ótimo, perdi a única chance que tinha de sair daquele lugar. Percebi que era um corpo, estirado do outro lado do quarto. Eu tremi da cabeça aos pés. Quem seria através daquele capuz preto? Tentei não fazer mais objeções. Quanto menos me questionasse, melhor seria. Fui me arrastando até o lado do corpo estirado, com uma dificuldade enorme. Cada movimento que tentava realizar, meus pulmões simplesmente falhavam, e o oxigênio não entrava. O que eram poucos metros pareceu-me ser necessário correr cinco vezes por todo campus da Academia Crawford. Tentei não ligar. Só mais três segundos. Prendi a respiração, ignorando a pontada de dor na barriga, e sentei-me ao lado do corpo estirado. Com cuidado, apoiei a cabeça em minhas pernas, e tirei o capuz. Um grito formou-se em minha garganta.

-Thomaz! – gritei, com a boca seca.

Ele não me ouviu. Prendi a respiração quando minhas mãos procuraram inutilmente seus pulsos. As lagrimas começaram a cair quando meus dedos pegaram em suas mãos frias e ensopadas de sangue. Pressionei o polegar em seu pulso, que ainda saia pequenas gotas de sangue. Graças aos céus, ele ainda estava vivo. Sorri comigo mesma, tentando não ficar ofegante. Dei pequenos tapinhas em sua bochecha, esperando que ele acordasse logo. Mas isso também era inútil. Talvez ele estivesse mais cansado que eu, afinal ele foi torturado mais do que qualquer outra pessoa. Rasguei um pedaço do tecido de minha camiseta, cobrindo seus inúmeros ferimentos, tentando inutilmente estancar o sangue. Depois que cobri todos seus machucados, sentei-me de costas na parede gélida. Deixei minha cabeça tombar para trás, e permiti que meus olhos se fechassem.

 

Dormi pelo que pareceu alguns segundos, mas quando acordei pequenas frestas de luz invadiam o quarto vazio, fazendo toda a poeira rodopiar. Tentei levantar as mãos na esperança de me espreguiçar, mas a mão de Thom a segurava fortemente, impedindo-me de me mover. Ele estava acordado, olhando-me com um ar pensativo. Meu corpo inteiro paralisou. Mesmo depois de anos, eu ainda não sabia o que fazer ao seu lado. Ficava desorientada, e com tendências idiotas. Deveria beija-lo? Talvez gritar com ele. Ultimamente ele me dava inúmeros motivos para jogar sapatos de salto alto em sua cabeça. Eu poderia chorar. Falar tudo o que estava sentindo, todas as coisas que descobri. Contar sobre Gabe, Darius, Ben, Octavio, e talvez um suposto Jesse. Poderia me desmanchar em lagrimas e esperar que definharmos juntos naquele quarto. Optei pela opção mais simples. A opção que sempre preferi.

-Olá, Thommy. – sorri.

-Faz séculos que não me chama assim. – disse ele, sorrindo mais ainda. – Você sabe que eu gosto. Porque parou?

-Você não me deu motivos para chama-lo desta forma.

-E o que seria motivos para você? – ele franziu a testa.

-Você não aparecer com uma mancha de batom violeta na camiseta. Não beber feito um idiota, e ter hálito de animal morto por culpa desses cigarros. – coloquei os dedos nos lábios, lembrando de mais alguma coisa – Ficar fora de problemas também. Não me prejudicar por causa desse laço idiota.

Ele fez certo esforço para sentar-se ao meu lado, e recusou minha ajuda. Terminando de dizer um dicionário inteiro de novos palavrões, ele encostou a cabeça na parede, como a minha também estava. Seus pulsos voltaram a sangrar quando ele apertou minha mão com força.

-Também senti sua falta.

Então ele me beijou. Não foi um beijo natural – tinha gosto de sangue e de bebida alcoólica – mas mesmo assim foi o melhor beijo que Thom já me dera. Havia alivio naquele beijo. O alivio que iriamos morrer juntos, pelo menos.

-Não vamos brigar, tudo bem? – disse ele com uma voz rouca.

-Sim. – eu sussurrei.

Amarrei mais pedaços de pano em seus pulsos, esperando que parassem de sangrar. Thom estava mais pálido que nunca. Havia perdido muito sangue, sem sombra de duvidas. Ele fechou os olhos com força, como se tudo aquilo fosse surreal. Ficou assim por alguns segundos, depois os abriu novamente, como se lutasse contra um monstro imaginário. Eu me ajoelhei ao seu lado, preocupada.

-O que há de errado?

-Tudo. – disse ele com um suspiro. – Acho que estou ficando louco.

-Se isso te conforta, não é só você. Também sinto que estou ficando louca de pedra. – eu sorri. – depende da loucura que você se refere, obvio. Se um lhe desse uma nota de cinquenta reais, você a rasgaria?

-Não nesse sentido. – ele sorriu. – Não a rasgaria. Mas acharia que ela é um Marcado tanto me matar. Então eu lutaria contra o dinheiro, e acabaria metendo os dentes no meu próprio braço esperando morrer.

Ele soltou uma risada. Apesar do tom de brincadeira, havia algo serio em seu tom de voz. Ele mordeu os lábios e revirou os olhos, como sempre fazia quando estava mentindo.

-Eu não vou deixar você enlouquecer. – sussurrei.

-Esqueci que me conhecia tão bem assim.

-Mais do que você imagina.

-Eu sei. – ele olhou para mim – Queria lhe falar algo. Nunca trai você, ok? Nós não estávamos juntos, certo, mas eu não fiquei com nenhuma garota nesse tempo. Não sei de onde surgiu a marca naquela camisa. Demorou semanas para eu conseguir encontrar meu físico.

-Você deve ter tido inúmeras noites baseadas na boemia, não?

-Não fale nesse tom de ironia, Anna. Você sabe que eu sempre me arrependo de tudo o que faço no final. Pra te dizer a verdade, quando encontrei meu físico, eu estava com uma camiseta diferente.

-E você por acaso lembra das camisetas que coloca?

-Obvio que lembro. – ele riu. – Eu vestia uma camiseta branca quando nos vimos da ultima vez. Quando eu encontrei meu físico, estava vestindo uma camiseta escrita “Keep Calm and eat muffins.”

Eu franzi a testa. Aquilo não poderia ser verdade.

-Vamos, levante minha camiseta, Anna.

Levantei sua camiseta preta, e embaixo dela ele vestia uma outra camiseta amarela com a frase “Keep Calm and eat muffins” em laranja fluorescente.

-Melhor que eu não pergunte como isso aconteceu, Thom.

-Por favor.

Ele tombou a cabeça de lado, percorrendo os dedos pelos cortes em seu pulso. O silencio era a pior coisa que nós poderíamos querer agora. Eu sabia que mais um segundo acabaria contando tudo para ele. Estava tão insuportável esconder tudo da única pessoa que eu estava acostumada a não esconder nada!

-Thom, preciso lhe contar algo.

Então eu despejei um milhão de palavras sem sentido a ele. Algumas saíram sufocadas pelas lagrimas, outras ficaram inaudíveis. Quando contei sobre a morte de Gabe e Darius, tive a certeza que meu coração se comprimiu tanto que a dor chegou a ser física. Minhas mãos tremiam tanto que tive que coloca-las nos bolsos de meus jeans, mas não adiantava; porque sempre tinha que leva-las ao rosto para secar as lagrimas. Então chegou na pior parte. A morte de Saddie. Dessa vez não apenas minhas mãos, mas meu corpo inteiro começou a tremer, e meu choro foi intercalado com gritos de agonia pela lembrança. Talvez a pior maneira de ser torturada são com suas próprias lembranças.

Thom parecia tão perdido quanto eu. Pela sua expressão, ele não havia entendido metade das coisas que eu havia lhe dito, mas estava tão agoniado quanto eu mesma. Secando uma lagrima que caia sobre a minha face, ele disse:

-Você está gravada em minha mente para que nem um milhão de soldados possam leva-la de mim.

-Vamos nos perder um do outro.

-Não! – ele quase gritou. – Não vamos. Não desta vez.

-Nós sempre prometemos isso um ao outro. E olhe onde estamos.

-Vai ser diferente dessa vez, Anna.

-Não tem como ser diferente, Thomaz! – comecei a chorar novamente. – Não tem como ser diferente porque não vamos sair daqui.

Ele se calou. Reconheci esse gesto dele instantaneamente; significava que eu estava certa.

-Confie em mim, Anna, sairemos daqui.

-Como? Thom, eu não aguento mais isso. Ou eu morro ou fico viva.

Funguei, me afastando um pouco dele. Enterrei as mãos em meus cabelos, puxando-os até sentir dor.

-Ei, pare com isso. Eu também me sinto assim, e isso é uma droga. Talvez fosse melhor que eu morresse logo, mas… Esquece. – ele parou, e me fitou.

-Termine.

-Eu ainda tenho você e tia Rebecca. Tenho Pedro também, e de certa forma meus pais, que estão vivos. Não posso desistir de tudo tão facilmente.

-Você desistiu. Desistiu de tudo quando ignorou o que estava acontecendo.

-E você não desistiu também, Anna? Fugindo? Ignorando tudo que não esteja envolto em seu mundinho? – seus lábios de contraíram de fúria. -  Ambos desistimos.

-Desisti porque não havia saída. Será que você não entende, Thom? Desisti porque sabia que nunca iria ter uma casa, me casar, e ter filhos. Eu nunca vou ter filhos. – repeti mais para mim mesma do que para ele.

-Desde quando você quer ter filhos? – ele me perguntou, unindo as sobrancelhas.

-Não sei. Qualquer coisa que chegue perto de uma vida normal, talvez.

-Nossa vida nunca irá ser normal, Anna. – seu rosto ficou obscuro. Lembrando-se que eu continuava ali, ele tentou sorrir. – Mas podemos tentar ter filhos. Depois que sairmos daqui.

Abri a boca para voltar a dar meu discurso que nunca sairíamos dessa, mas desisti. Eu estava exausta demais para discutir com Thom. Deixei-me aproximar dele novamente, colocando com cuidado minha cabeça em seu ombro.

-Eu estava pensando em você com aquele vestido vermelho. Lembra? – ele sussurrou para mim.

-Na verdade não.

-Naquele jantar idiota da elite. Nosso primeiro encontro, se você acrescentar na lista que o salão pegou fogo e você desmaiou.

-Ah! Claro! – lembrei-me subitamente, e comecei a rir.

Então, de um segundo para o outro, todos os pelos de minha nuca arrepiaram-se. Ouvi barulho de passos. Passos apressados. Saltos batendo no assoalho. Encolho-me mais anda. Ao meu lado, Thom tenta se mover, inutilmente – a dor em nossos corpos é forte de mais para sustentar nosso peso – e ao contrario de mim, ele parece calmo. Os passos chegaram mais perto de nós, e dedos ágeis destrancavam os cadeados que estavam presos ali. Nós tínhamos segundos.

-Você tem que me matar, Thom. – sussurrei ao pé de seu ouvido.

-Somente se eles te pegarem. – eu assenti. – E a proposito, quero que faça o mesmo comigo. 

Sua voz foi entrecortada com a porta se abrindo. Um feixe de claridade penetrou na sala, que nos fez ficar cegos. Thom segurou minha mãos com força, e murmurou algo. Senti uma carga de energia inundando meu corpo, e de repente já era capaz de me levantar. Em meu subconsciente, lembrei de um encantamento que havia lido com Thom na Academia Crawford, algo como passar sua energia para outra pessoa. Transferência de energia. Isso significava que a pouca energia que restava nele, agora estava em mim. Levantei-me rapidamente, e esperei. Uma mulher alta com botas até os joelhos entrou na sala. Não tive tempo de ver sua feições. Senti o peso do corpo da mulher indo de encontro ao meu assim que ameacei desafia-la entre as sombras. Rolamos no chão, ao tempo que senti uma pontada no antebraço direito. Tento movê-lo, mas me sinto incapacitada demais. A mulher estava enterrando a ponta de sua faca em meu braço, girando a lamina devagarinho. Alguma coisa quente e viçosa escorre pelo meu pulso, enchendo minha mão. Eu queria desistir e deixar que esta mulher me matasse logo, mas me dei conta da pessoa que estava quase sem vida do outro lado da sala. Thomaz. Meu desejo de morrer. Minha promessa de mantê-lo vivo. Meu coração se enche um pouco de esperança quando me dou conta que ele deve estar vivo porque não senti nenhuma fraqueza através do laço. Com um momento de distração daquela mulher, puxo a faca de sua mão, de modo que a lamina roça em seu pescoço. Levanto-a do chão com facilidade e uso o peso de meu corpo para prendê-la na parede, a faca a poucos centímetros de seu pescoço. Percebi que ela não era Marcada. Então porque diabos estaria em uma mansão infestada de Marcados? Seus cabelos negros e longos cobriam sua face, e sua respiração ficou entrecortada quando minha lamina perfurou um pouco sua pele. Eu queria mata-la ali mesmo, mas alguma coisa me impedia. Era como se fosse uma força maior que eu. Sempre quando tentava empurrar a lamina mais fundo em sua pele, meu braço paralisava. Tentei dar um golpe fatal, quebrando seu pescoço, então meu braço paralisou e  faca caiu de minhas mãos. Fiquei meio zonza, me apoiando na parede. Era agora ou nunca que aquela mulher nos matava. Mas não. Ela não pegou a faca do chão, nem me sufocou. Ela correu ao meu lado, segurando-me pelos cotovelos. Eu quis me afastar, mas ela me emburrou para o chão ao lado de Thom. Ouvi seus passos apressados irem até a janela. A mulher deu vários socos nas janelas de madeira, que partiram-se. A luz do sol inundou a sala vazia, e eu fitava uma mulher alta e pálida, de seus trinta e poucos anos, com os cabelos negros e longos, e olhos tão escuros quanto os meus. Senti uma pontada de dor olhando para ela. Seus olhos pareciam com os do Sr. Jensen, que eram tão perturbadoramente parecidos com os meus. Um bolo formou-se em minha garganta.

-Não vou machuca-los. – disse ela rudemente. – Não precisam me atacar.

-Quem garante isso? – falei, levantando-me novamente.

Fiquei a sua altura para encara-la.

-Eu. – disse ela com firmeza.

-E quem é você?

-Lucy. Sua mãe.

Movimento-me o mais rápido que posso para longe daquela mulher. Minha cabeça lateja com o ritmo acelerado de meu coração. Não havia para onde fugir. Um forte bip bip inunda meus ouvidos. A seguir ouço gritos. Não meus. Não os de Thom. Gritos de agonia. Sinto minha pele pegando fogo, e meu corpo sendo jogado para fora daquele quarto. Tudo parece irromper de uma vez só. A terra explode numa chuva de sujeira e grama. Árvores ficam em chamas. Uma sombra faz-se acima de minha cabeça. O aerodeslizador se materializa acima de mim. A garra desce, prendendo-me contra ela. Queria gritar, correr, proteger Thom, encontrar o corpo de Ben em algum lugar, libertar os outros presos naquele tronco horrível de metal. Meu coração bate com tanta força que o sangue começa a jorrar de meus pulsos. Meus piores temores são confirmados quando vejo o rosto do Sr. Jensen a minha frente. Com o polegar e o indicador, ele fecha as minhas pálpebras, fazendo com que tudo fique breu. 


1 week ago | 19 May 2012 | 0 notes |

Capitulo 5 

 

Acordei com o corpo todo dolorido, e soltei um assovio baixo quando uma pinçada se prolongou de meu pescoço até a coluna. Acho que todos tiveram mais sorte, pois estavam muito mais bem humorados do que eu, recolhendo o acampamento.

-Anna, melhor ir logo – disse Octavio – alguns Marcados estão vindo, mas irá dar tempo suficiente para tomarmos uma boa distancia.

-Quantos? – perguntou Saddie.

-Ouvi uns dez.

Caminhamos em silencio até o lado leste da floresta. A cada passo que obrigava meu corpo a dar, uma pinçada de dor estendia-se até meu cérebro. Mastiguei a língua para não gritar de dor. Estávamos andando havia mais de cinco horas, e só havíamos parado para beber um pouco de água. Eu não conseguia enxergar nada que não fosse árvores e grama, mas Octavio quis continuar. Disse que estávamos perto da base central de prisão dos Marcados. Eu não cogitei.

-Acho que devíamos parar um pouco, não sinto mais meus pés. – disse Ben, jogando o pouco que restava da água na cabeça.

-Não pare. – disse Octavio, sério.

-Precisamos parar um pouco, Octavio. – comentou Saddie.

Ela sentou-se na grama e tirou as botas, exibindo bolhas de sangue por todo o pé direito. Não gostaria de ver o esquerdo. Octavio bufou, e se encostou em uma árvore. Tudo parecia bem, até que Octavio começou a andar de um lado para o outro.

-Estão ouvindo o barulho? São passos. De Marcados.

Ficamos em silencio para ouvir, mas nada além do farfalhar das folhas e a correnteza do rio parecia inquietante. Como ninguém falou nada, ele começou a dar tapinhas nas costas de Saddie para ela se apressar.

-Vamos Saddie, vamos, já é quase meio dia!

-Octavio, você esta ficando paranoico. Não à absolutamente nada aqui.

-Eles estão vindo! – disse ele, apressando-se a andar. – Se não acreditam em mim, fiquem aqui e esperem para ver.

Ben levantou-se de má vontade, e começou a segui-lo. Seu olhar me afirmava para fazer o mesmo, e eu não o cogitei. Saddie ficou resmungando pelo o que pareceu uma eternidade, até que ouvi um barulho estranho e uma náusea me atingiu. Lembrei-me do dia que Marcados invadiram a Academia Crawford, e eu tive aquele mesmo desconforto quando eles aproximavam-se. Em menos de um segundo, dois Marcados pularam em nossa frente, mostrando as presas. Prendi a respiração, e saquei uma faca. Estávamos em desvantagem por ambos os Marcados serem incrivelmente mais forte que nós, que nem conseguíamos ficar em pé. Eu sabia o que fazer, mesmo que isso significasse perder minha própria vida.

-Corram! Eu cuido disso! – falei, gesticulando para todos correm.

Ninguém se moveu. Eu tornei a gritar para que corressem, mas ao invés disso Saddie me puxou pelos cabelos antes que eu terminasse meu escudo. Quando ela percebeu que eu entendi e sai correndo em disparada, ela finalmente soltou meu cabelo. Octavio ia à frente, e nós o seguíamos. Segundo ele, ele conhecia aquela floresta como o pudim de passas feito por sua mãe. Mas não adiantava muito correr. Estávamos em desvantagem. Nunca iriamos conseguir correr o suficientemente rápido para deixa-los para trás. Meus instintos diziam-me que a floresta acabaria logo ali. Depois que a vegetação acabasse, todas as árvores dariam lugar a um enorme precipício. Eu não estava errada. Ben freou bruscamente em minha frente, fazendo uma pedrinha rolar pelo abismo. Saddie parou atrás de mim, com duas facas nas mãos tremulas. A nossa direita havia uma pequena ponte que dava para uma mansão. A “prisão” dos Marcados. Engoli em seco. Ou morreríamos lutando com esses Marcados ou morreríamos dentro de alguns segundos dentro daquela mansão.

-Vamos! – gritou Octavio, fazendo nos mover até o outro lado.

Obriguei-me a correr em direção a morte, literalmente. Não me atrevi a olhar para baixo. Nem para os lados. Um vento frio que o inverno trouxera fazia a ponte balançar um pouco, e meus cabelos ricocheteavam na chuva que começava a cair. Eu tremi da cabeça aos pés, mas não parei de correr. Quando estava praticamente na metade da ponte, parei bruscamente. Saddie estava gritando atrás de mim.

-Me soltem! – ela gritava.

Um dos Marcados havia a pegado pelo pescoço, tirando seus pés do chão. Avancei institivamente para lutar contra ele e Saddie sair de suas garras, mas o outro Marcado colocou-se a nossa frente.

-Nada disso. – ele rosnou.

O outro Marcado pressionou as garras no pescoço de Saddie. Ela não gritou. Não chorou. Só o olhou com ironia. Isso fez com que aumentasse a raiva dele, e a cada segundo suas garras perfuravam ainda mais seu pescoço. Saddie abriu os lábios lentamente, movimentando-os freneticamente. Eu não conseguia entende-la. Ela suspirou, ignorando a quantidade de sangue que saia de seu pescoço. Fixei meus olhos nela, que então movimentou os lábios novamente, dessa vez com mais clareza. “Mate-me.” Dizia ela. Não. Eu não iria mata-la. Então, como se lesse meus pensamentos, Octavio deu um passo a frente e jogou uma faca, que atingiu seu coração imediatamente. Seu corpo pálido caiu inerte no chão; o sangue escorrendo por toda ponte. Seus olhos estavam fora de orbita. Como Octavio teria coragem de ter feito aquilo? Desviei os olhos para Ben, que parecia tão pasmo quanto eu. Deveríamos correr? Ficar ali, esperando a morte? Curar Saddie? Lutar contra os Marcados? Ambos os Marcados começaram a rir. Octavio também sorriu, exibindo os dentes brancos. O que ele estava fazendo? Matara Saddie e agora estava rindo com os Marcados? Ben tocou meu braço levemente, sussurrando em meu ouvido:

-Temos que correr… Octavio… Ele…

Antes que Ben terminasse a frase, um dos Marcados pulou a minha frente. Senti uma imensa dor na cabeça, ouvi um grito, minha visão ficou turva então não vi mais nada.

 

A dor não diminuiu. Muito pelo ao contrario. Aumentava a cada segundo, sufocando-me. Tentei mexer meu corpo, mas nada obedecia meus comandos. Nem um único dedo se quer. Senti meus pulsos e tornozelos presos com algo que parecia correntes de ferro, e meus pés não tocavam o chão. Tudo estava escuro, e o único barulho que havia eram de laminas raspando umas contra as outras. Abri os olhos. Eu estava em uma sala mal iluminada que cheirava a sangue seco e álcool, e vários troncos de madeira formavam um circulo na sala. No centro do circulo, havia uma mesa de metal com vários tipos de facas, laminas, mordaças, agulhas, correntes e parafusos. Minha visão ainda estava embaçada, e eu não conseguia respirar com regularidade. Como um golpe forte, lembrei-me da morte de Saddie. Quase que por reflexo, lembrei-me do Sr. Jensen dizendo que nenhuma emoção deveria atrapalhar a missão. Eu ainda estava confusa com a atitude de Octavio, e tentando ver sentindo no que Ben disse-me antes de… Ben. Onde ele estaria? Fechei os olhos com força, e isso melhorou de certa forma, pois consegui enxergar tudo a minha volta com mais clareza. Em um dos troncos de madeira que formava o circulo da sala, observei algo vermelho movimentando-se. Um bolo formou-se em minha garganta. Lá estava Ben, do outro lado da sala, na mesma situação que eu. Tentei encontrar seus olhos, mas ele parecia estar envolto na própria dor. Olhei ao meu redor. Mais quatro pessoas estavam presas nos troncos de madeiras, todas desacordadas. Tentei controlar o pânico que formava-se lentamente em mim.

-Ah, que bom que meus novos hospedes já acordaram. É falta de educação ficar dormindo e não conversar com o anfitrião, sabiam?

Um homem Marcado louro aproximou-se de mim, tirando um canivete do bolso. Ele passou a lamina do canivete em minha face, tirando meus cabelos que caiam nos olhos. Tentei esconder o medo. O canivete ficou com um corte mais forte, e mordi os lábios até sair sangue quando a dor prolongava-se de minha bochecha até o pescoço. Ele deu uma risada maligna.

-Foi um prazer ter presenciado a morte de sua mãe, Anna. Lucy tinha um sangue espetacular. Em todos esses tempos, não encontrei sangue mais doce que o dela. Fico me perguntando se… Ah, não vamos esquecer que temos outro convidado. – ele fitou Ben e deu uma gargalhada. – Hoje vai ser um dia adorável.

Outro Marcado entrou na sala. Seu rosto estava coberto com um pano preto, de modo que seus olhos vermelhos saltavam para fora.

-Marcus, já cuidamos de Octavio.

-Octavio. – ele repuxou os lábios. – Foi uma ótima ideia tê-lo como aliado. Recompense-o depois. Por hora, vamos brincar com esses aqui.

Octavio. Como aliado de Marcus. Um Marcado. Como fui tão burra de não perceber? Octavio nos traiu. Me traiu. Se não fosse por ele, Saddie, Gabe, Darius… Todos estariam vivos. Aos poucos, todas as peças começaram a se encaixar. A insistência dele nos acompanhar na missão, o modo como ele nos conduzia pela floresta, dizendo que a conhecia mais do qualquer outro lugar… Aquilo me dava náuseas. Marcus caminhou até um dos corpos presos nos troncos. Era o corpo de um garoto, sem sombra de duvidas. Um corpo magro e judiado, com cicatrizes e feridas em carne viva por cada centímetro de seu peito nu. A calça jeans estava manchada de sangue. Um corte seguia de seu umbigo até a garganta. Por sorte não vi sua face, pois estava coberta com uma pano preto como o do Marcado do outro lado da sala. Marcus pegou a maior lamina e começou a afia-la.

-Tenho altos planos para você, Anna. – ele começou a dizer, sem tirar os olhos vermelhos da lamina. – Pode virar fornecedora. Um objeto de negócios, sem duvida. Você ficaria uma Marcada muito bonita, sabia?

-Prefiro morrer a me tornar isso. – cuspi as palavras.

-Oh, não fale assim. – ele fingiu pânico. – Acho que mudara de ideia logo mais.

Sua lamina roçou no peito nu do garoto. Seu sangue vermelho começou a pingar do pequeno corte que começou a se formar, depois foi ficando mais profundo, até seu sangue começar a jorrar quando a lamina atingiu as costelas. Senti meu peito inteiro se comprimir, e uma dor nada normal atingiu minhas costelas. Olhei para minha camiseta branca, e uma mancha vermelha de sangue começava a ganhar forma perto de minhas costelas. Engoli em seco. Aquilo não poderia ser verdade.

-Pare! – gritei para Marcos, que fixou o olhar em mim.

– Ora ora, o que temos aqui. Uma pequena salvadora para um garoto que não merece nem a ultima gota de sangue artificial.

Marcus gravou a lamina mais fundo na altura dos ombros do garoto, e depois a deu para o outro Marcado desinfeta-la com álcool.

-Não os machuquem. Por favor.

Marcus me olhou ferozmente, mas deu um sorriso irônico quando viu a mancha de sangue em minha camiseta.

-Então é verdade. O laço. – disse ele, maravilhado.

Eu engoli em seco. Por mais que eu tentasse ignorar, sabia quem estava debaixo daquele capuz preto. Sabia quem estava sendo torturado mais uma vez. Com um gesto brusco, Marcus puxou o capuz do garoto, que caiu no chão. Ele estava desacordado, com a cabeça pendendo para frente. Os cabelos cor de mel ainda irradiavam algo parecido com alegria, ou o mais próximo do que eu havia chegado quando os vi pela ultima vez.

-Solte-o. – gritei. – Solte Thomaz!

Marcus sorriu, me ignorando. Caminhou até a mesa lentamente e pegou um isqueiro. Com um gesto delicado, levantou a tampa e o acendeu. As chamas multicoloridas se fundiram com o abdômen de Thom, que abriu os olhos instantaneamente, como se tivesse levado um choque.  Marcus tirou o fogo de perto de sua pele, e imediatamente a cabeça de Thom tombou para frente, e ele desmaiou.

-Pare com isso. Solte-os. É a mim que você quer. E aqui estou. – disse, tremendo dos pés a cabeça.

-Não é o suficiente. – grunhiu Marcus.

-O suficiente? – falei indignada.

Ele caminhou novamente até a mesa de ferro e pegou dois parafusos. Deu dois passos longos até Thom. Esticou seus braços. A ponta do parafuso perfurou sua pele, e uma grande quantidade de sangue começou a sair. Não. Eu não o deixaria fazer isso. Concentrei todas minhas forças naquele pequeno parafuso de metal, que saiu da pele de Thom e voou para o outro lado da sala. A raiva me dominava. Ignorei o sangue que começou a sair pelo meu pulso, do corte invisível. Tudo ali baseava-se a Marcus, e eu não o deixaria mais encostar um só dedo em Thom. A mesa de metal começou a chacoalhar, como se um terremoto tivesse começado. Olhei fixamente para uma faca, desejando que ela flutuasse até Marcus. A faca me obedeceu, e em questão de segundos a faca pressionava o pescoço de Marcus. Um metal frio encostou-se em meu pescoço, e percebi que o outro Marcado da sala plantava-se ao eu lado, a faca pressionada em minha pele. Minha respiração ofegante era o único barulho do lugar. O silencio foi cortado pela risada de Marcus.

-Interessante! Muito interessante! – disse ele, batendo palmas. – Para você deve ser incrível, certo Lucy? Todo esse poder dentro de você, ansioso para sair…

-Do que me chamou? – perguntei, incrédula.

 O Marcado que segundos antes segurava a faca em meu pescoço afastou-se de mim.

-Não se finja de idiota, Lucy. – disse ele com ênfase. – Você merece tudo isso aqui.

Marcus olhou com olhos vermelhos sonhadores para mim, como se ele não estivesse na realidade. Jogou a cabeça para o lado, fitando cada corpo preso no tronco.

-John, Elizabeth… Até Effie juntou-se em nossa cerimonia! – disse ele, apontando para cada tronco. – Sem falar em Edward.

Seus olhos pousaram no corpo de Thom. Ben, que parecia ter recuperado parte da consciência, olhava-me mais assustado que nunca. Eu reconhecia aquele olhar nele. O mesmo olhar que ele me deu na ponte. O olhar que significava que estávamos em um perigo maior do que imaginávamos. Se isso envolvesse um Marcado louco, ponto para ele. Decidi fazer o mesmo joguinho que Marcus. Se fosse eu fosse morrer ali, pelo menos morreria dizendo algo que fizesse sentido. O cara era louco mesmo! Que diferença ele poderia enxergar entre mim e mamãe? Nenhuma.

-Marcus, porque está fazendo isso com todos? – disse, com uma voz adorável.

-Você sabe, querida Lucy. Não podemos deixar nossos bebes correrem perigo, ainda mais com essas pessoas vivas.

-Bebes? – disse, em uma voz quase inaudível.

-Oh, claro! Esqueceu-se? Anna e Jesse, você sabe!

Um arrepio percorreu meu corpo inteiro. Bebes. Jesse. Marcus e mamãe. Meu estomago se contorceu inteiro. Eu não sentia mais as correntes de ferro presas em meus pulsos. Não sentia mais os cortes espalhados pelo corpo adquiridos graças ao laço. As feridas abertas em meus braços não pareciam mais doer. Jesse. Marcus e mamãe. O que aquilo significava? Que Marcus era meu pai? Que eu tinha um irmão?

-Vamos fazer todos pagarem aquilo que merecem, Lucy. – disse Marcus, em uma voz doce. – Inclusive você.

Só me lembro de seus olhos vermelhos saltarem de ódio, e a seguir tudo ficou breu novamente. 


1 week ago | 19 May 2012 | 0 notes |

Capitulo 4 

 

Fomos deixados por um aerodeslizador no centro de uma floresta, onde mais adiante estava um pequeno chalé onde iriamos ficar por alguns dias para recompor a energia. O mapa mostrava que Caleb estava quase no fim da floresta, onde encontrava-se um penhasco, e por fim, o mar. Descobrimos que Thom estava na prisão dos Marcados, o que significava que aquele chalé seria nossa ultima parada, e, sendo menos otimista, que aquela floresta estava impregnada de Marcados.

-Bah, eu não aguento mais andar. – resmungou Darius. – Prefiro matar alguns Marcados, sabe, só para variar.

-Não reclame, estamos andando apenas a três horas. Quando estava em missão, ficávamos andando por um dia sem parar. – disse Octavio, pegando um graveto para cutucar árvores ocas. – Jovens. Reclamam tanto.

-Talvez seja melhor darmos uma parada e comer alguma coisa. – disse Ben, já diminuindo um passo. – Pode ser, Anna?

-Ah, sim. Claro. Vou formar escudos. Sejam breves.

Fiz pelo menos três escudos ao redor de nós, e revistei pelo menos cinco vezes o pequeno circulo onde estávamos. Fui para área norte, e meu corpo inteiro paralisou quando ouvi um barulho dentro do escudo. Os passos aproximavam-se de mim entre as folhas secas, cada vez mais. Pensei em gritar por ajuda, mas decidi que não iria adiantar, pois outros Marcados iram saber onde estávamos. Me escondi atrás de uma árvore, pronta para pegar o inimigo pelas costas. Os passos tornaram-se mais lentos, e depois cessaram. Sai da árvore e olhei na direção dos passos. Nada. Quer dizer, um pequeno esquilo avançava para pegar uma noz, mas isso é o mesmo que nada. Um esquilo me assustou. Um esquilo. Tenho que parar de ser idiota, sem mas. Voltei para minha equipe, que estava esparramada na grama se empanturrando de chocolates e carne de cão selvagem.

-Servida? – perguntou Octavio estendendo a comida para mim.

-Não, obrigada. – disse, torcendo o nariz.

Tombei ao lado de Ben e esperei todos terminarem de comer. Tudo isso estava absolutamente normal, como se nem estivéssemos em uma missão. Tudo estava bem, e esse era o problema. E se talvez não fosse um esquilo, mas um Marcado que tivesse pulado em uma árvore assim que viu meu corpo se mexer para analisar o barulho?

Minhas conclusões estavam certas. Pelo menos cinco marcados pularam para os nossos lados, e eu só tive tempo de sacar minha estaca e passar três vezes mais magia para ela do que eu era capaz. Os Marcados eram todos homens, e infinitamente maiores que eu. Decidi cuidar do maior deles, que veio rosnando em minha direção. Eu esquivei de seu toque, e quase cai no chão quando ele prendeu minhas pernas em suas mãos. Eu gritei de dor assim que senti meus ossos da perna direita ficarem em um ângulo não muito agradável. O Marcado jogou o peso de seu corpo para cima do meu, impedindo-me de respirar. Sempre me ensinaram que em ultimo recurso teríamos que enfiar os dedos nos olhos do sujeito que nos ataca sem dó, mas o problema era que eu não conseguia me mover. Suspirei algumas vezes, tentando manter a calma enquanto tentava deixar meu pescoço o mais distante possível dos dentes afiados do Marcado. Onde estavam minha equipe? Olhei rapidamente em volta, e vi Darius e Gabe cuidado de um, enquanto os outros cuidavam sozinhos dos outros. Sr. Jensen que me desculpe, mas eu iria morrer ali mesmo se não usasse minha magia. Concentrei-me em ver aquele marcado tossindo até os pulmões saírem, e foi isso que aconteceu em seguida. Ele se afogou com a própria saliva, e isso foi o suficiente para eu conseguir achar uma brecha e cravar minha estaca em seu coração. Ele virou pó aos meus pés. Peguei a estaca e a encantei novamente, partindo para outro Marcado. Decidi ajudar Darius e Gabe, que cuidavam de um Marcado com altura e peso próximos com o que eu estava lutando segundos atrás. Eles travavam uma batalha sem magia, por isso decidi usar a minha. Fiz as mãos do Marcado pegarem fogo por apenas alguns instantes, mas então senti algo prendendo meus braços. O outro Marcado havia chegado atrás de mim e prendido minhas mãos atrás das costas. Seus dentes estavam próximos de minha garganta. Senti o hálito quente jorrando em minha pele, e o cheiro inconfundível de morte que vinha dele. Gabe olhou fixamente para o Marcado que as mãos estavam pegando fogo, e em seguida ele transformou-se em uma tocha humana, e em menos se segundos havia virado pó. Ben apareceu assustado em minha frente, então Darius assumiu o controle, queimando as penas do Marcado que ainda me segurava. Isso deu uma brecha, e nós dois cravamos a estaca em seu coração. Todos os Marcados haviam se transformados em pó. A adrenalina saiu de meu corpo, e senti a dor aguda em minha perna. Ben me segurou pelos cotovelos antes que meu corpo colidisse com o chão gélido.

-Precisamos sair daqui. – disse Saddie, séria pela primeira vez.

-Matamos cinco. Impossível que mais deles estejam por vir. – concluiu Octavio.

-Então ouçam. – disse Saddie, colocando o dedo indicador nos lábios. – Apurem os sentidos.

Todos prenderam a respiração. Tudo o que ouvi foi as folhas secas batendo umas contra as outras, galhos movimentando-se, o ar rodopiando a minha volta, o barulho dos cílios de Ben… Até que ouvi. Passos. Passos apressados em nossa direção.

-Precisamos sair daqui. – sussurrei, tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Saddie voltou a colocar o dedo indicador nos lábios, e apontou para a direção oeste da floresta.

-Você consegue se levantar? – perguntou Ben, em um sussurro quase inaudível.

Tentei me levantar, sem sucesso. Mordi os lábios para não gritar de dor, e senti o gosto acentuado do sangue inundando minha boca. Ele disse um “tudo bem” mudo a mim, e me pegou no colo. Eu queria protestar, dizer que isso produziria mais barulho e o deixaria fraco e desatento, mas ele não ligou para o meu olhar de fúria. Mas, mais uma vez, eu estava errada. Mesmo carregando uns cinquenta e cinco quilos, Ben era ágil e habilidoso. Não me deixou cair uma única vez, e fez menos barulho que qualquer outro da equipe. Os passos ficaram mais rápidos e mais próximos.

-Calculei uns vinte passos diferentes. Contando com os que estão nas árvores, equivale a pelo menos uns quarenta Marcados. – murmurou Octavio.

-Não podemos lutar contra quarenta Marcados! – disse Darius, perdendo o controle.

-Estamos encurralados. – pensei alto. – árvores seriam inútil para nós. Tampouco continuar andando, pois os passos estão ficando mais próximos.

-Vamos ter que cavar então. – disse Gabe. – podemos fazer tuneis usando nossos poderes. Darius e eu somos praticantes de fogo, podemos construir tuneis, e…

-Não daria tempo. – disse Octavio.

Então tudo aconteceu muito rápido. Dois Marcados apareceram, e Saddie e Octavio lutaram imediatamente contra eles. Darius e Gabe começaram a arder em chamas, e juntos fizeram um circulo de fogo, fazendo praticamente um vulcão no subsolo. Isso consumia grande parte da energia deles, o que significava que Saddie, Octavio, Ben e eu teríamos que estar livres para protegê-los. Mas eu não estava, e consequentemente Ben também não estava.

-Você quebrou a perna. Quanto tempo acha que leva para curar? – perguntou ele, aflito.

-Eu não sei. Precisamos fazer algo até que Gabe e Darius consigam.

-Anna, são uns quarenta Marcados.

-Eu sei. Mas temos que protegê-los, Ben. Venha cá, me ajude a levantar.

Sem sucesso. Mordi os lábios de dor novamente, e isso me lembrou duma tática que eu e Thom usamos quando a Academia Crawford foi invadida.

-Ben, eu os paraliso com minha magia e você crava a estaca.

-Mas isso vai consumir toda sua magia, e sua perna irá demorar mais para curar.

-Não temos opção.

Ele pareceu querer cogitar algo, mas desistiu. Minhas táticas eram infalíveis, e ele cravava a estaca com precisão no coração de cada Marcado. Isso deu certo até o decimo, quando pontos multicoloridos dançaram em minha frente, e a seguir tudo ficou breu.

 

-Anna, acorda!

Gabe gritava comigo, sacudindo meus ombros. Eu estava incrivelmente suja de terra, e não conseguia respirar direito. Percebi que Darius e ela haviam conseguido fazer o túnel. Olhei para os lados, e todos da minha equipe estavam ao meu lado. Suspirei de alivio, e tentei mexer minha perna. Ela estava doendo só um pouquinho, e agradeci quem quer que tivesse colocado bandagens nela para estancar o sangue.

-Fazer esse túnel terá sido inútil. – disse Octavio. – Do que adiantara ir para o outro lado se uns quarenta vampiros irão para o nosso lado e vão nos comer vivos mesmo assim?

-Não se bloqueássemos a passagem. – disse Darius. – com fogo. Como um vulcão.

-Você enlouqueceu. – disse Saddie ironicamente.

Então eu dei uma boa olhada em Darius, que estava deitado e incrivelmente ferido. Um bolo formou-se em meu estomago quando percebi que suas pernas estavam envoltas em sangue e bandagens que foram colocadas inutilmente ali… Parei de olhar quando entendi o que aquilo significava. Suas penas estavam mutiladas.

-Olhe o meu estado. Não trago mais benefícios para a equipe, então o plano é o seguinte, eu vou esperar vocês chegarem do outro lado do túnel. Quando Ben me der o sinal eu coloco fogo no túnel.

Todos olharam fixamente para ele, menos Gabe, que desmanchou-se em lagrimas ao seu lado.

-Não, não. Por favor, Darius, não… – soluçou ela. – Como você sairá depois?

Aquela foi uma pergunta inútil. Darius fitou o chão, e todos nós sabíamos da resposta muda daquele olhar. Ele não sairia.

-Ben, posso esperar você dar um bip no comunicador?

Ben deu um longo e pesado suspiro.

-Sim, parceiro.

-Não, Darius, não… – voltou a choramingar Gabe.

-Gabe, olhe para mim. – disse ele pegando suas mãos. – quero que saia desse túnel e aproveite o Sol. Por nós dois.

-Não vou deixar você aqui. – disse ela decidida.

-Sim, você precisa.  

-Não vou.

-Por favor, Gabe. – implorou ele. – Viva. Por nós. Por mim.

-Eu te amo, Darius.

-Eu te amo mais.

Ele a beijou, e um bolo formou-se em uma garganta. Aquele momento era muito intimo para qualquer outra pessoa ver, mas não tínhamos opção.

-Revendo o plano. – disse Darius, apertando a mão de Gabe quando ela tornava a soluçar. – Espero Ben dar o bip e transformo em chamas esse túnel e esses malditos Marcados vão para o inferno.

-Temos que ir. – interrompeu Octavio. – já consigo ouvir passos deles.

-Obrigada, Darius. – sussurrei.

-Sucesso na missão, Anna. – ele suspirou. – agora vão logo.

Obriguei minhas pernas a se mexerem, e me perguntei se Ben não teria que me pegar no colo novamente. Ouvi a corrente de ar rodopiar atrás de mim, e virei-me instantemente.

-Gabe! – gritei, correndo até ela.

Gabe fizera um escudo. Um escudo para não passarmos por ela e nem por Darius.

-Deixe-a, Anna. – disse Saddie, puxando-me pelo braço.

Pelo canto do olho vi Gabe deitar-se ao lado de Darius, e ambos sorriam um para o outro, como se nada nem ninguém pudesse penetrar no mundo dos dois. Obriguei-me a correr, e não reclamei quando Saddie gritava para que eu fosse mais rápido. O ar foi ficando mais rarefeito e quente, então eu avistei a claridade. Ouvi um estrondo, e me joguei no chão no exato momento em que lavras começaram a sair do túnel. Mesmo assim não estávamos seguros. Continuamos a correr, até achar um riacho bem distante da explosão.

-Será inútil andarmos mais. Daqui a pouco já vai escurecer. – disse Octavio, rompendo o silencio.

Ninguém cogitou. Ben montou vigília, enquanto Octavio roncava e Saddie se debatia durante o sono. Eu não consegui pregar os olhos. Perdi duas pessoas de minha equipe em menos de vinte e quatro horas. Não eram só simples membros de minha equipe, eram meus amigos, que tomavam café da manhã comigo todos os dias. A dor em minha perna foi completamente ignorada em relação à dor que sentia em meu peito.

-Você deveria tentar dormir. – disse Ben, vendo que eu não havia dormido.

-Não consigo.

Eu me levantei, e sentei ao seu lado. A noite estava silenciosa, de modo que prendemos a respiração apenas para ouvir o barulho do riacho.

-Foi uma atitude nobre. Dos dois. Tiveram muita coragem. – disse Ben, rompendo o silencio.

-Sim. – foi tudo o que consegui falar.

O que mais poderia falar? Que ambos perderam a vida em uma missão completamente idiota e insana que eu havia proposto? Não, essas não eram as palavras para aquele momento.

-O que está pensando? – disse Ben, passando as mãos pelos cabelos ruivos.

-Eu não sei. Sempre quando eu penso em muita coisa junta, eu paro de pensar em tudo em uma hora para outra. É como se meu cérebro pifasse.

-Se eu parar para pensar em tudo o que acontece em minha vida, eu não estaria aqui. – ele suspirou. – Posso te fazer uma pergunta?

-Sim.

-O que acha de mim?

-Antes te achava arrogante. – eu suspirei. – Agora não faz mais diferença.

-Devo agradecer?

-Sem sombras de duvidas, Ben.

-Então obrigado.

-Por nada.

-Então posso te perguntar outra coisa?

Eu revirei os olhos. Não sabia que Ben poderia ser tão tagarela.

-Sim.

-Você deve gostar mesmo desse cara que estamos indo resgatar, não é?

-Sim, ele é como um irmão para mim. – falei, ignorando a pontada no estomago assim que pensei em Caleb. – Ele fez minha vida ficar mais fácil quando pensei que tudo estava perdido.

-Ah. Esse Caleb deve ser um cara legal.

-Caleb é adorável. – eu sorri.

-E o outro? Thomaz Salazark. Aquele com quem você compartilha o laço. – eu franzi a testa. – Ah! Desculpe. Isso deve ser intimo demais.

-Tudo bem, Ben. Ele vale tudo isso aqui. Quando Caleb estiver conosco, ele vai nos ajudar a localizar Thom também, e tudo vai ficar bem, você vai ver.

-Eles devem valer a pena o sacrifício.

Eu engoli em seco. A ultima frase de Ben foi como um tapa na cara.

-Você tem medo? – perguntei, depois de vários minutos de silencio.

-Do que? – perguntou ele.

-De morrer.

-Oh, não. – ele deu um riso fraco. – estou muito bem preparado para isso. Na verdade, morrer seria até de certa forma um alivio. Mas… Eu não gostaria de ser pego pela Corte ou pelos Marcados. Preferia morrer do que ser pego por eles.

-Isso é horrível. – comentei, com a boca seca.

-Posso te pedir um favor, Anna?

-Sim, claro.

-Quero que você atire em mim se por acaso a Corte ou algum Marcado me pegar. Seria capaz de fazer isso?

Eu engoli em seco.

-Sim. Mas gostaria que você fizesse o mesmo comigo.

-Sem sombra de duvidas.

Deixei Ben dormindo um pouco enquanto fitava as estrelas no céu limpo. Tudo o que eu queria era sair logo ali, ficar o mais distante possível daquela escuridão que cheirava a morte, sacrifícios e o que quer mais que fosse. Encostei a cabeça na árvore, e fiquei satisfeita quando Saddie tocou em meu ombro para indicar que seu turno começaria.

-Ei, vá dormir. – disse ela, sentando-se ao meu lado.

-Não estou com sono.

-Teremos que caminhar muito amanhã, você sabe. Octavio disse que quanto mais rápidos formos, mais chances temos de…

-Sobreviver. – completei para ela.

-Sim, sim. Mas por favor, não fique se agonizando pela morte de Gabe e Darius. Não foi sua culpa. Os Marcados são tão rápidos!

-Saddie, está tudo bem. – disse com a voz rouca.

-Não, não está. Só que ficar mal desse jeito vai influenciar a equipe, e dependemos de você. Agora vá dormir.

Balancei a cabeça mecanicamente, enquanto jogava meu corpo na grama. 


3 weeks ago | 6 May 2012 | 0 notes |

Capitulo 3 

-Anna, isso é… – disse Dimitri, enquanto avaliava o mapa. – Incrível.

-Sim. Mas Marie enfatizou que não deveríamos ficar com ele por muito tempo.

-Oh sim, tem magia muito poderosa aqui. Mas nada que escudos não resolvam. E além disso você está segura aqui.

-Dimitri, imagine em quantas vidas não podemos salvar com esse mapa! Teríamos uma vantagem imensa!

-Isso é incrível! – ele sorriu. – Como você descobriu sua função?

Contei a ele sobre o sonho com Marie, e não pude evitar as lagrimas quando consegui dizer entre soluços “Ela morreu”.

-Sinto muito, Anna.

-Era por isso, Dimitri – dei uma fungada – Que gostaria de sair em uma missão. Temos que acabar logo com essa guerra, e o único jeito é matar a Rainha e o comandante dos Marcados. Mais soldados seria ótimo, além do mais…

-Anna, quem quer que você esteja pensando em trazer para cá, quero que saiba que isso não vai poupa-los a vida. Você não vai conseguir protege-los.

-Eu devo isso a eles. Coloquei-os em perigo.

-Não Anna, por favor. Foi mero destino tudo o que aconteceu. Você não pode desfazer o passado, é inevitável.

-Eu sei, mas posso modificar o futuro, certo? Não quero que mais nenhum deles morram.

Ele suspirou.

-Quem você estava pensando em trazer para cá?

-Thomaz, obviamente. Caleb. Thiago Dragomir. Sara Brucks e Hanna Lyon. – tomei nota mentalmente de anotar em um papel depois.

-Vou conversar com Jensen.

-Oh, Dimitri, obrigada! Isso significa muito para mim!

-Não lhe posso garantir que consiga.

Fiquei rodopiando uma xicara de café vazia enquanto Dimitri conversava com Sr. Jensen em seu escritório. Desisti de ficar sentada na poltrona vermelho sangue, e fiquei andando de um lado para o outro. Cansei de roer o pouco que restava de minhas unhas assim que ouvi o Sr. Jensen gritar: “Está maluco? Obvio que não, Dimitri! Ela é uma criança que pensa que pode salvar todos da guerra!”

-Anna Van Der Laurvski? – disse uma mulher ruiva, assistente do Sr. Jensen. – Sr. Dimitri e o Sr. Jensen pediram para que você entre imediatamente na sala.

“Agora tudo está acabado” pensei comigo mesma. Girei a maçaneta sem nenhum entusiasmo, e fitei a parede cor de creme, ignorando os olhares em mim. Mais duas pessoas estavam na sala. Reconheci Mina e Octavio.

-Sua solicitação de missão foi negada. – disse Sr. Jensen, estupefato.

-Jensen, por favor, pare de mau humor. – Mina levantou-se, e encheu minha xicara de café novamente. – Então Anna, me diga, porque que sua solicitação de missão seja aceita?

Minha garganta secou. “Para trazer todos aqueles que amo para um lugar seguro” pensei, mais desisti de falar. Limpei a garganta.

-Não quero ficar parada enquanto uma guerra está acontecendo lá fora. Quero que tudo isso acabe. E quantos mais soldados, melhor.

-Espera fazer o que, Anna? Cozinhar um bolo de chocolate para todos os Marcados enquanto espera achar todas as pessoas que procura convivendo em uma casa cor de rosa? – disse Sr. Jensen.

-Talvez o senhor não saiba, mas eu já enfrentei Marcados antes. – disse entredentes.

-Ah claro, um Marcado jovem pressuponho. Receio que teremos que encerrar a reunião.

-Não! – gritei, levantando-me do sofá. – Cedo ou tarde termos que encara-los. Para quê treinamos todos os segundos se quando lhe peço a droga de uma solicitação o senhor a nega? Treinamos para ver nossas famílias morrerem, suponho eu. Creio que até amigos. Professores. Metade da população vampira.

-Isso lhe daria uma bela de uma detenção, Srta. Van Der Laurvski. – disse Sr. Jensen, espumando de raiva.

-Talvez eu faça um belo de um bolo de chocolate com meu tempo livre a partir de agora. Não vou economizar veneno em seu pedaço, pode deixar, senhor. Retirada aceita.

Abri a porta em um rompante, tentando não pensar nas ultimas palavras que eu disse. Pedaço de bolo de chocolate com veneno, Anna? Francamente, você poderia ter pensado em algo melhor. Sentei-me na perto de uma árvore quanto avaliava todas as respostas que poderia ter dado ao Sr. Jensen, desde as mais irônicas e comportadas até as mais inteligentes. Avistei Mina vindo em minha direção, com os cabelos ruivos balançando ao vento.

-Anna, tenho ótimas noticias! – disse ela.

-Minha detenção?

-Não! – ela riu. – Sua solicitação de missão foi aceita!

Senti meu corpo inteiro se paralisar.

-Mina, por favor. Não brinque com isso.

-Não estou brincando! Ordens de Jensen! Você tem vinte e quatro horas para escolher sua equipe, e…

-Como ele mudou de ideia?

A expressão no rosto de Mina ficou sombria. Ela sentou-se ao meu lado, pegando uma flor e tirando pétala por pétala.

-Octavio votou contra. Sua filha foi morta durante uma missão. Jensen contra, obviamente, eu e Dimitri a favor.

-Porque votou a favor, Mina?

-Anna, meus pais morreram quando a guerra começou. Foram os primeiros a serem mortos. Eu não tinha mais nenhum parente, e precisava comer e morar em algum lugar. Tornei-me uma Prostituta de Sangue. Não é algo que eu me orgulhe, entende? Fiz isso porque estava com fome. Jensen ficou sabendo sobre o meu caso, e trouxe-me para cá. Na verdade, fui reconhecida pelas minhas habilidades por arco e flecha, e Jensen prometeu-me um emprego, comida e moradia. – ela sorriu. – Ele foi um anjo. E Anna, eu quero que essa guerra acabe tanto quanto você. De verdade.

Eu fiquei muda. Mina, a mulher com seus vinte e cinco anos com cabelos cor de fogo pareceu-me muito mais velha e cansada.

-Sinto muito. Prometo que vou dar o melhor de mim nessa missão, Mina.

O dia passou rápido. Arrumei algumas coisas básicas em uma mochila para levar na missão, e desci para o jantar. Ainda não sabia quem escolher para ser parte de minha equipe, em partes porque sempre fiz tudo sozinha e em partes porque não gostaria de que houvesse mais mortes.

-Isso é ótimo! – exclamou Gabe durante o jantar. – Há anos pessoas pedem solicitações, mas acho que você foi a única que conseguiu.

-Você não sabe o que eu passei para conseguir, Gabe.

-Convencer o Sr. Jensen não deve ter sido fácil, obviamente, mas você tinha Dimitri ao seu lado, então…

-Foi a mesma dureza. – completei.

Ela riu com o meu comentário, e até Lucas deu uma risadinha.

-Ah, Lucas? – chamei-o. – Gostaria de conversar com você um momentinho.

Ele assentiu, e fomos para uma parte mais deserta do refeitório.

-Então.

-Então obrigada. Por aquela noite, no hospital. Obrigada por ficar lá, simplesmente ao meu lado.

-Tudo bem. – ele sorriu. – Eu não fui o único. Darius e Gabe foram, Ben também. Até Vania, a treinadora das crianças foi. Ah, acho que Saddie também estava lá.

-Posso te pedir um favor?

-Acho que já sei. – ele franziu a testa. – Não contar sobre o seu estado de zumbi naquela madrugada. Tudo bem, deixe comigo.

-Você é o melhor, Lucas.

Ele riu, e voltamos para a mesa. Decidi que não o queria na minha equipe. Ele era muito adorável para correr risco de morte.

-Já decidiu quem vai levar na missão? – perguntou Ben, colocando um pedaço de pudim na boca.

-Não. Alias, acho que vou sozinha.

Todos bateram os talheres no prato. Gabe olhou-me indignada, e Darius lançou um olhar de fúria para mim.

-Tem ideia de quantas pessoas dariam tudo para entrar em uma missão Anna? E quais suas chances de conseguir o que quer sozinha? Menos de zero, suponho. – disse Darius.

Gabe pousou a mão nos ombros dele, e imediatamente ele se acalmou.

-Anna – começou ela, mais docilmente. – Darius quis dizer que ninguém aqui já viu a luz do Sol, e essa é uma oportunidade ótima para vermos.

Aquilo me surpreendeu. Nunca tinha pensando por esse lado.

-Eu nunca me perdoaria por colocar meu amigos em uma missão suicida.

Gabe deu um risinho.

-Anna, somos treinados para missões desde os cinco anos de idade. Antes da guerra acontecer, isso aqui era como uma entidade secreta. Quer dizer, a guerra já existia naquela época, só entrou no ápice agora.

Eu engoli em seco. Não terá um dia em que em não me arrependa de dizer essa frase.

-Gabe, Darius, Ben, querem ir à missão?

Não preciso nem falar que todos aceitaram. Permaneci com minha promessa de não levar Lucas. Eu o devia uma. Depois que o jantar acabou, todos foram para seus dormitórios arrumar seus pertences, e eu enviei os nomes para o Sr. Jensen. Mas uma coisa me fez parar. Eu poderia levar quatro pessoas em meu grupo. Corri até a base de armamento, encontrando Saddie montando uma metralhadora.

-Saddie – disse, ofegante. – Fui solicitada para uma missão. Quer ir?

-Claro! – ela riu.

Tudo pareceu bem irônico, especialmente a reação dela. Decidi não comentar.

 

No dia seguinte passei pela revisória antes de ir, na qual o Sr. Jensen fazia um teste psicológico conosco, para avaliar nosso nível de preparação. Encontrei minha equipe na mesma salinha que dava para o escrito do Sr. Jensen. Todos ali pareciam bem empolgados ou era impressão minha?

-Então do nada ela perguntou se eu gostaria de ir! – disse Saddie, aos risos. Gabe parecia a mais feliz.

-Só de pensar que a missão é daqui a algumas horas… – ela deu outra risada.

Então a secretaria do Sr. Jensen chamou-me, e segui com passos pesados através da porta. Ben estava saindo, dando gargalhada de alguma coisa. Como essas pessoas são estranhas.

-Oh, Anna! Bom dia! – disse ele, deixando-me a sós com o Sr. Jensen.

Eu olhei furtivamente para os lados, desejando que eu só fosse mandada para a missão e nada mais. Sr. Jensen passou as mãos pelos cabelos crespos, fitando-me.

-Bem, vamos acabar logo com isso. Esta é sua mochila, onde encontra-se mantimentos, água, sangue artificial e alguns curativos. E isso – ele levantou uma agulha – é o seu rastreador.

-O meu o que?

-Rastreador.

Ele aproximou-se de mim, furando meu pulso com a agulha e depois de alguns segundos retirou-a. Não parecia absolutamente nada, até que passei os dedos no local onde a agulha espetou, e percebi um pequeno quadradinho dentro de minha pele.

-Não se preocupe, vai ser retirado se você voltar da missão. Vamos para o teste. Eu pergunto e você responde, simples. Certo?

-Certo. – suspirei.

-Qual a primeira coisa a se fazer quando sair daqui?

-Seguir o plano.

-Que plano? – ele ergueu uma sobrancelha.

-Aquele que pretendo seguir para que tudo dê certo.

-E se não der certo?

-Vou ter um plano B. E assim sucessivamente, antes que o senhor me pergunte.

-Vocês foram encurralados. – recomeçou ele – Todos estão em perigo. Quem você deve salvar primeiro?

-Vou tentar salvar todos, nem que isso custe a minha vida.

-Situação inversa. Você esta ferida e não pode seguir em frente. Aceitaria ser sacrificada pela missão?

-Sim.

-Interessante. – ele sorriu. – O oposto agora. Benjamin ou Gabe foram feridos. Talvez os dois até. Deixara-os para trás?

-Não.

-Resposta errada.

Eu engoli em seco.

-Srta. Anna, pode se retirar.

Eu sai com um suspiro, e encontrei vários pares de olhos demonstrando ansiedade.

-Como foi, Anna? – perguntou Saddie.

-Eu não sei. Quando o Sr. Jensen vai dizer se passamos ou não?

-Talvez agora. – disse Darius.

Sr. Jensen saiu de seu escritório, puxou uma cadeira e sentou-se à nossa frente.

-Muito bem. Todos foram aprovados, com exceção de Anna, que não passou no teste psicológico.

Minha cara deve ter sido engraçada, pois todos olharam para mim. Alguns até deixaram escapar algum risinho.

-Por este motivo que Octavio irá com vocês nesta missão.

Octavio, o homem que Holmes apresentou-me semanas atrás. Octavio tinha seus trinta e pouco anos, e tinha uma cabeleira loura de dar inveja. Talvez fosse melhor que eu não cogitasse as decisões do Sr. Jensen. 


3 weeks ago | 4 May 2012 | 0 notes |

Capitulo 2  

Esperei que algo me atacasse. Por enquanto nada. Até que senti o cheiro de algo pegando fogo. Ah, batam palmas para mim que pensei que seria poupada por ser novata. Bolas de fogo rodopiaram diante de mim. Tudo aconteceu muito rápido. Comecei a correr em plenos pulmões, ignorando meus cabelos chamuscados. Então flechas envenenadas começaram a vir de todas as direções. Como eu sabia que eram envenenadas? Descobri da pior maneira, quando uma flecha perfurou meu antebraço. Facas passavam a pouca distancia de meu corpo, e eu tinha pouco tempo para desviar delas. Não eram só facas. Eram chamas, facas, espadas e flechas. Aquela arena era a morte. Estava quase desistindo quando pensei “que se dane tudo isso”. Até agora estava tentando fazer todos os movimentos certos, todos que aprendi em sala de aula. Mas então apostei no tudo ou nada. Uma faca emperrou em minha perna, e eu a consegui tirar antes que ela se fixasse em minha pele. Armada de uma faca, sai dos esconderijos onde me mantinha e sai em disparada por toda a arena. Avistei uma árvore, e a escalei rapidamente, tendo a visão da arena de cima. Alguns escudos. As chamas estavam vindo de algum praticante de fogo. As flechas estavam sendo atiradas por três pessoas. As espadas por duas. E as facas apenas por uma; Sr. Jensen. Sem pensar muito no que estava fazendo, mirei a faca na mão da garota que estava atirando as flechas em mim, então ouvi seu arco caindo no chão e ela cobrindo a mão, rindo e saindo da arena. Menos uma. Desci da árvore e peguei uma flecha perdida. Tinha pouca utilidade, mas me contorci em um galho e a joguei em algum de meus oponentes. O garoto das espadas. A flecha fixou-se na manga de sua blusa, e ele cambaleou para trás. Fui até onde ele estava, pulando de árvore em árvore, e peguei duas espadas. Procurei na arena um ponto X, onde todos tinham a minha visão clara. O tempo estava se esgotando. Faltavam umas quatro pessoas, incluindo o Sr. Jensen. Joguei a espada no praticante de fogo, depois em outra pessoa, que eu nem sabia distinguir o que estava atirando em mim. Peguei outra faca, e acertei mais uma. Agora só faltava o Sr. Jensen. Eu sabia que não faria sentido jogar nada contra ele, pois ele era infinitamente mais rápido. Então ele desceu da árvore, e deu um sorrisinho para mim.

-Vamos ver do que é capaz, queridinha.

Ele partiu para cima de mim, sem dó, sem armas. Eu me esquivei diante de seu golpe. Ele era infinitamente maior que eu, mas eu tinha a vantagem de ser pequena e rápida. Um golpe acertou minhas costelas em cheio, mas não dei muita importância. Eu estava cansada daquilo. Queria acabar com aquele jogo logo. Afastei-me, tentando pegar folego, mas Sr. Jensen parecia de ferro. Ele aproximou-se e pegou meu rosto entre as mãos, como se fosse me beijar, mas então percebi o que ele iria fazer. Iria torcer meu pescoço. Lembrei do verão que eu e Thomaz passamos juntos, rindo e brincando de batalhas. Ele me ensinou a ver o golpe antes da pessoa realiza-lo, e me ensinou como tomar o controle da situação e realizar o golpe antes da pessoa. Esquivei-me rapidamente, e os braços do Sr. Jensen agarram o vazio, bem na hora em que peguei seu pescoço entra as mãos e imobilizei seu corpo.

-O Jogo acabou. Dispensados. – disse ele, levantando-se e sacudindo a grama das roupas.

Algumas pessoas bateram palminhas, enquanto meus atiradores estenderam a mão para mim, me parabenizando. Não causei nenhum ferimento a eles, ainda bem.

-Servi para alguma coisa?

-Bem, sim. Não exatamente, mas já serve para algo.

Sr. Jensen olhou-me com severidade, e me dispensou. Tive a impressão que ele deu um sorriso; mas isso é impossível. Ele não sorri.

 Mal percebi que o dia chegara ao fim, jantei apressadamente e fui para meu quarto. As ultimas semanas passaram-se assim. Treinamentos, que por sorte tornaram-se mais suportáveis desde o episodio com o Sr. Jensen, que pareceu ter se espalhado pelo acampamento inteiro. Isso era divertido. Eu gostava de fazer o desenho dele ensanguentado em cima de uma pilha de facas afiadas em meu caderno, mas isso era uma coisa que só achava graça. Para as outras pessoas, o Sr. Jensen era uma espécie de deus grego. Ele comandou todos naquele acampamento, e apesar da aparência fria e rude, ele era um homem bom e amoroso. Que ironia. Depois de mais um jantar com Ben, Gabe, Darius e Lucas, tinha ainda uma hora antes do toque de recolher. E sabia o que fazer com essa hora. Desci com passos leves até o hospital, e conversei com algumas pessoas.

-Como está hoje, Mackenzie? – perguntei, sorrindo ao vê-lo.

-Bem. – ele de um sorriso fraco. – Morfina que te quero.

Nós rimos. Uma piadinha particular. A dor que ele sentia era tanta, que só altas doses de morfina adiantavam. Senti algo em meu estomago, mas não era o costumeiro enjoo. Senti um calor subindo pelo meu corpo, e involuntariamente estiquei as mãos, cobrindo seu coração. Mackenzie não falou nada. Concentrei-me em algo bom, os lugares mais belos que já havia estado. Não sabia se a cura daria certo. Espiei rapidamente. Nenhum resultado. Mackenzie ainda estava deitado, com o coração batendo irregularmente. Então pensei na época mais feliz que já tivera. Pensei na Academia Crawford, no campus verde com árvores frutíferas. Pensei em meus primeiros dias lá, em meus pais. O bip bip do aparelho cardíaco de Mackenzie se regularizou espantosamente.

-Diana! – gritei, com lagrimas nos olhos. Eu havia acabado de curar Mackenzie.

Diana fez inúmeros exames nele. Apenar de não ter pernas e nem braços, ele parecia radiante pelo simples fato de ter que viver sem aparelhos respiratórios pelo corpo.

-Oh, Anna, obrigado. Como posso te agradecer? – disse ele.

-Não precisa. Só vá para casa e abrace seus filhos.

Enfermeiros o tiraram do hospital, enquanto ele ainda murmurava “obrigado” para mim. Era apenas uma visita rápida aos seus filhos, mas pelo menos já era alguma coisa. Assim que ele foi embora, Diana me encarou.

-Uma praticante dos 5 Elementos. – disse ela.

-Sim.

-Que tem o dom da cura. Interessante.

O som de seus sapatos de salto me deixou sozinha no pequeno quarto branco cheirando a álcool. Acho que conquistei um pouquinho a Enfermeira Chefe curando Mackenzie. Isso me fez um bem danado. Me sentia viva novamente, com vontade de curar todos naquele hospital. Mas eu sabia qual seria a próxima. Saddie, a mulher magra até os ossos. Fui até seu compartimento, e ela esfregou os olhos de sono ao me ver.

-Anna? – perguntou ela.

-Saddie, onde sente mais dor? – perguntei, com um sorriso estampado no rosto.

-O que está tramando?

Revirei os olhos, sabendo simplesmente onde era o foco de sua doença. Coloquei as mãos em sua barriga, e tive todos os pensamentos inundando-me novamente. Ignorei a pontada fria em minha nuca, e prossegui, ate ver pontinhos multicoloridos dançando em minha frente. Saddie abriu os olhos, espantada. Estendi o pudim de chocolate para ela, e esperei os três minutos cruciais depois da primeira colherada. Nada. A comida ficou no estomago dela. Depois de quatro hambúrgueres e cinco copinhos de sangue artificial, ela parou para me agradecer.

-Não sei o que uma pessoa tão boa como você faz aqui, longe do Sol. – ela deu uma dentada no queijo quente.

-Não sou tão boa assim, Saddie.

-Você é. Arriscou sua sanidade mental para me dar a cura. Nunca vou ter como agradece-la.

Eu sorri. Nunca esqueceria dos efeitos colaterais do uso da Cura. Mas eu não estava me importando; gostaria de fazer algo com que as pessoas lembrassem de mim. Eu me iluminei por dentro. Fui caminhando até a área de queimados e encontrei varias crianças dormindo, dez, talvez quinze delas queimadas das cabeças aos pés. Como fui tão egoísta por não ter pensado nisso antes? Curei cinco, sete, oito crianças. Todas elas continuaram dormindo, e pensei na felicidade delas quando acordassem e vissem que a pele esta perfeita e macia como cetim. Nove crianças. Dez. Só mais cinco, disse para mim mesma, ignorando a falta de ar. Ignorei todos os sintomas de mal estar, até que avistei a ultima criança. Cambaleando, fui até ela, e a tentei curar. Nada aconteceu. Os pontos multicoloridos ficaram mais fortes na minha frente, mas eu os ignorei. Uma pontada forte no pulmão. Sangue começou a sair de minhas narinas. Eu não parei. Iria curar aquela criança. A batida em meu coração ficou irregular, e eu sabia que com mais alguns segundos eu a curaria. Meu coração deu uma batida fraca, então tudo ficou breu.

 

-Ok, vamos ignorar o fato que você está virando uma santa curandeira. – disse Sr. Jensen, ao meu lado.

Eu estava no hospital, com Saddie, Dimitri e Sr. Jensen. Pequenos fios prendiam meu corpo, e eu me sentia presa mais que o normal. A enfermeira Diana apareceu, com uma expressão séria no rosto.

-Anna, agradeço todas as crianças que você curou mas…

-Mas nada. Ela fez por livre e espontânea vontade. Assim é melhor, quanto mais soldados curados melhor para o nosso lado.

Disse por fim o Sr. Jensen, e todos saíram da sala, enquanto os sedativos faziam efeito em mim. Senti todos aqueles remédios fazendo efeito lentamente, e fui puxada para um sono cada fez mais profundo. Mas, desta vez, não houve pesadelos. Era inverno. Estava nevando, mas mesmo assim um vestido branco de algodão moldava-se pelo meu corpo. O Sol estava se pondo, e a neve derretendo. Marie estava sentada ao pé de uma árvore, olhando-me apreensiva.

-Oh, Anna, pensei que não viesse.

Peguei suas mãos tremulas entre as minhas.

-Como poderia deixar de vir, Marie? – sorri. – Como estão as coisas?

Ela mordeu os lábios trêmulos, e desviou o olhar.

-Já desvendou o mapa?

-Marie, aquele pergaminho está em branco…

-Céus, você tinha que ser rápida! Aquele mapa pode lhe custar a vida!

-Acredite Marie, eu sei.

-Eu não tenho muito tempo. – disse ela por fim. – Abra o pergaminho quando estiver sozinha. Esvazie seu coração, deixe sua mente limpa. Tudo se encaminha melhor quando você purifica seu coração. Lembre-se disso.

Sua imagem foi ficando mais tremula, e suas palavras distorcidas.

-Marie! – gritei, antes que sua imagem desaparecesse. – Onde você está?

Ela me olhou com tristeza, dando um grande suspiro.

-Eu posso te achar – prossegui – estou em um lugar muito bom, onde treinam a gente para guerra. Você iria gostar, Marie, eu sei que iria…

-Anna, eu morri.

Eu engoli em seco. Sua imagem foi se distorcendo cada vez mais, até que nada mais restava de seu corpo. Gritei de pânico e horror, desejando estar longe dali.

-Você é capaz de acordar o hospital inteiro, heim. – disse uma voz desconhecida.

Eu virei-me rapidamente, sobressaltada e assustada demais para falar algo. Lucas, o garoto que almoçava comigo todos os dias, estava olhando para mim, com um sorriso irônico. Eu nunca ouvira sua voz. E acredite, eu preferia não tê-la ouvido. Coloquei um pé para fora da cama, ignorando o fiozinho que levava soro até meu corpo e cambaleei até a porta.

-Onde você pensa que vai? – disse ele, me pegando pelos cotovelos quando quase cai.

Não, eu não iria gastar minha saliva e paciência explicando-lhe o sonho. Agradeci em silencio por já estar de noite e o hospital estar vazio – com exceção de algumas enfermeiras jantando – e apoie-me nas paredes até sair dali. Não parei. Minha visão estava embaçada, e pontos multicoloridos dançavam na minha frente enquanto eu arfava. Meu pulmões pareciam estar pegando fogo, mas eu prossegui. Andei praticamente me arrastando até a porta de meu quarto, e girei a maçaneta por fim. Deixei meu corpo cair na cama, ouvindo o clic do colchão. Revirei minhas gavetas, até que por fim meus dedos roçaram no pergaminho velho. Eu não queria pensar que Marie havia morrido. Morrido por minha causa. Morrido por um estupido pedaço de pergaminho. E se eu não tivesse sido egoísta o bastante e ter ficado, ter ajudado ela enfrentar os Marcados que estavam a caminho? Ela com certeza estaria viva. Mas eu apenas pensei em mim mesma. Pensei em sair dali respirando. Talvez eu merecesse tudo o que estava acontecendo. Pressionei o pergaminho em meu peito, desejando voltar no passado e não ter deixado Marie na mão. Desejei não ter deixado ninguém na mão, nem mesmo Pedro ou Thiago, Vee, Hanna, Sara, Caleb… Thom. Eu estava fazendo isso com ele. Estava deixando-o sozinho. Sim, eu errei, ele errou, mas isso não significa que eu tenha que deixa-lo na mão. Sequei as lagrimas com a manga da blusa, só conseguindo pensar: “Em que tipo de monstro eu me tornei?”. Eu teria que parar de ser egoísta. Teria que salvar aquelas poucas pessoas que ainda me restavam. Eu vou salvar aqueles que ainda restam, nem que isso custe a minha própria vida; pensei. Desenrolei o pergaminho com as mãos tremulas, e fitei-o. Não havia nada escrito. Fechei os olhos, tentando “purificar” meu coração, como Marie havia dito. Mas a verdade era que não tinha como purificar nada ali. Abri os olhos lentamente, desejando que meus pais adotivos, Jason e Samantha, estivessem aqui. Eles eram os melhores caçadores, e conheciam todo tipo de magia, desde a mais antiga a mais atual. Ah, que saudade eu sentia deles. Lembrei de meu primeiro dia na Academia Crawford, quando eles morreram tentando me levar até lá. Lembrei que não tive permissão para ir ao enterro deles. Aquilo foi como um golpe em meu estomago, então eu decidi parar de viver o passado e abrir os olhos finalmente. Uma ponta de pânico formou-se em mim.

-Caramba. – disse lentamente.

O pergaminho em branco começou a ganhar forma, fazendo a planta perfeita do Cemitério de Flors, a pequena cidade onde meus pais estavam enterrados. Uma pequena flecha em vermelho apontava para o túmulo deles, e o nome dos outros túmulos estava escrito em negrito. Fechei o pergaminho. Aquilo não podia ser real. Imaginei Caleb dizendo: “Isso aí vale mais que todo bacon do mundo” como ele costumava dizer quando fiquei um tempo hospedada em sua casa. Aquilo me devolveu a calma, e abri o pergaminho novamente. O cemitério modificou-se lentamente, transformando-o no mapa de uma cidade. Uma flecha vermelha apontava para uma casa abandonada. Olhei mais atentamente. Ao lado da flecha havia uma pequena planta da casa, indicando todos os cômodos. Na cozinha, ao lado da geladeira, um ponto estava fixado e escrito em negrito: “Caleb”. Céus. Sorri comigo mesma. Não pensei duas vezes em Thom, e logo o mapa modificou-se, exibindo uma floresta do lado oeste da cidade. A floresta parecia um circulo, e parecia impossível tentar acha-lo, até mesmo com a flecha vermelho berrante apontando para o seu nome. Pensei em Dimitri, e o mapa indicou-me que ele estava a pelo menos dois andares acima de meu quarto. Acho que já sabia para onde ir. 


3 weeks ago | 4 May 2012 | 0 notes |

Capitulo 1 

 

-Dimitri, o que tudo isso significa? – balancei a cabeça, confusa. – Que está ocorrendo uma guerra eu já sabia, mas…

-Isso aqui não é uma guerra. Não tem como te protegermos mais, Anna. Não se trata somente disso. São muitos valores envolvidos. A Rainha foi Marcada. A Corte está um caos. Uma rebelião está por vir.

Um bolo formou-se em minha garganta. Isso tudo acontecera por desafiarmos a Corte. E os Marcados. E qualquer coisa que tentasse passar por nós.

-Dimitri, estou exausta. Podemos conversar sobre isso mais tarde?

Ele hesitou, mas saiu e deixou-me sozinha naquele quarto frio e escuro. Mas eu sabia exatamente o que fazer. Concentrei-me o máximo possível, e gritei em meus pensamentos: “Thom! Thomaz! Me ouça!”. Esperei uma resposta. Nada. Então pensei no sótão. Por mais que aquilo doesse mais que uma facada na perna ou qualquer outra coisa, obriguei-me a voltar no tempo, na época em que a Academia Crawford ainda existia e nós dois dividíamos nosso segredo no sótão abandonado. Fechei os olhos com força, e em questões de segundos eu estava ali. Senti o cheiro dos livros embolorados, e das velas queimando. Sentei-me no sofá velho, ignorando a nuvem de poeira que formou-se assim que me sentei. Ignorei também as lagrimas salgadas escorrendo por minha face enquanto um filme passava em minha cabeça; todas as lembranças que custei a esquecer voltando rapidamente, em um passe de magica.

-Thomaz. – chamei mais forte, engolindo em seco. 

-Faaaaaaaale.

Ele apareceu meio cambaleando, com um sorriso estampado no rosto. Um forte cheiro de bebida e cigarros vinham dele.

-Andou bebendo? – perguntei, incrédula.

-Não que isso seja se seu interesse, Vossa Alteza. – ele fez uma pequena reverencia.

Completamente bêbado. E com uma mancha de batom violeta na camisa branca. Suspirei lentamente, contando até dez.

-Isso não é do meu interesse. – cedi, por fim.

Um silencio esmagador veio a tona. Seu corpo tombou do meu lado, expondo algumas cicatrizes engraçadas em seus braços. Nenhuma cicatriz parecia ter sido feita acidentalmente.

-Então, se você se importa, quero que isso acabe logo. – disse ele rispidamente, tirando o braço mutilado de meu alcance.

-Ah. Certo. Vamos ao que interessa. – levantei-me do sofá tentando respirar. – Encontrei Dimitri.

-Isso é bom. Adoroooo aquele velho. – ele deu uma gargalhada.

-Ok. – fiz uma careta. – Sr. Jensen veio com ele. E um garoto ruivo também, o que não vem ao caso. E… Thomaz?

Ele olhou para mim, completamente branco. Parecia de certo modo perdido, e depois uma expressão inelegível passou por sua face. Sua expressão voltou ao normal, então ele começou a rir novamente. Droga. Eu realmente odeio gente bêbada. Sentei ao seu lado e com a minha magia purifiquei seu sangue, deixando-o livre de impurezas novamente. Ele abriu os olhos, e jogou a cabeça no encosto do sofá.

-Ficar bêbado hoje em dia custa caro, sabia? Ainda mais para alguém que tem resistência ao álcool.

-Desculpe. Quer dizer, retiro minhas desculpas. O que te leva a beber feito um…

-Que tal cada um cuidar de sua vida? Sem perguntas.

Ele levantou e acendeu u cigarro, andando de um lado para o outro. Contei tudo a ele. O dia no bar em que reencontrei Thiago e matei alguns Marcados, meu encontro com Marie, a cena do hotel e meu encontro com Dimitri. Quando acabei, ele deu um assoviou baixo.

-A coisa tá feia. – disse ele por fim. – Acho que não estou caçando Marcados suficientes…

-O que? – olhei-o fixamente. – Está caçando?

Ele me olhou com uma sobrancelha erguida.

-Esquilos que nos alimentamos. Vampiros. Marcados. Lobos. Qual a diferença de matar qualquer um deles?

-Thom! Você está matando sua própria espécie!

-Até parece que você perderia a chance de matar nossa antiga professora de Elementos e Suas Propriedades.

Eu ri com o comentário.

-Minha vontade de enfiar meu diploma de Os 5 Elementos na cara dela é quase dez.

-Nem me fale. – ele riu. – Eu bem que gostaria de incendiar aquele cabelo horrível dela.

Nós dois rimos, e por um momento tudo parecia… Bem. Até o silencio voltar. Eu fiquei paralisada entre o riso e as lagrimas. Fiquei paralisada pela falta que sentia dele. Agora eu entendera o que Marie disse. Por mais que eu não sentisse nada por Thom, eu era obrigada a sentir. Tudo nele me atraia, e nós nos completávamos perfeitamente. Isso é clichê, obviamente. Mas era como se eu dependesse dele. Como se eu precisasse dele para respirar. Então eu enxerguei o que estava a minha frente o tempo inteiro: Eu me arrependera de formar o laço. Não de salvar a vida dele, não, longe disso. Me arrependi de fundir nossos sangues, de nos tornarmos uma só pessoa, uma só alma.

-Obrigado. – disse ele.

-Pelo que?

-Nunca te agradeci, mas… Obrigado por salvar minha vida. Não só aquela vez com o laço, mas em todas. Você sempre arruma um jeitinho de me salvar. E eu sempre estrago tudo.

-Nós – eu o corrigi. – Estragamos tudo.

-Somos dois azarados. – riu ele.

-Talvez sempre sejamos.

-As coisas não precisam ser necessariamente assim, você sabe. – ele me fitou. – Somos imbatíveis juntos. Você mesma viu no incêndio, quando a Academia Crawford foi invadida… juntos somos invencíveis. É tipo  uma coisa de super-herói.

-Thom…

-Não, me deixe terminar! – ele colocou um dedo em meus lábios, ultrapassando nossa barreira invisível. – E, no entanto, quando estamos separados… Tudo fica mal.

-Não. – disse eu, com firmeza. – Você fez sua escolha aquela noite, quando brigamos. Preferiu acreditar no menos provável. Ficou cego de ciúmes. E isso – apontei o dedo para a mancha de batom violeta em sua camisa – é a prova. A prova que você não se arrepende coisa nenhuma.

-Não é isso que você pensa, Anna…

-Não, é exatamente isso o que penso! Eu penso que você é um idiota! Eu nem te reconheço mais! Thomaz, olhe para você! Ficando vinte e quatro horas por dia bêbado, caçando descontroladamente, e olhe essas marcas em seu braço! Acho que isso não foi acidental, certo?

-É uma pequena distração. Tenho que ocupar o tempo que resta com algo.

-Você é doente.

Ele deu de ombros, como se aquilo não importasse. Como se sua perda de peso não importasse. Como se as marcas pelo seu corpo não importasse.

-Vou embora. Espero que esteja seguro, e tenha aproveitado bem minhas informações.

-Espere! – gritou ele, pegando meu braço. – Você sabe que somos imbatíveis juntos…

-Thomaz. – eu disse, com toda calma que consegui reunir. – Já desisti de nós há tempos.

Eu pensei que ele fosse recuar e me soltar, mas não. Suas mãos agarraram meus cabelos com força, trazendo meu corpo para perto do seu com ânsia e receio. O toque frio de seus lábios me fez tremer, e o simples roçar de sua língua na minha me deixou com medo. Ele se afastou assim que percebeu que as lagrimas tinham escapado por meus olhos novamente.

-O que foi?- ele sussurrou para mim.

-Você… está tão diferente. – sequei uma lagrima.

Ele me beijou novamente, e eu recuei com pressa. O gosto amargo de sua saliva me paralisou, e eu olhei com receio para ele.

-Tem algo errado com você, Thom.

Ele desabou no sofá e pressionou as têmporas, como se já soubesse disso.

-Eu sei. – sua voz pareceu cansada. – Acho que estou doente.

-Besteira. Você não pode ficar doente.

-Mas estou.

Meu corpo inteiro congelou. Isso significava apenas uma coisa.

-Thomaz, onde seu físico está?

-Não sei. Perdido em algum bar.

-Preciso te encontrar. Porque não me avisou que havia algo errado com você? – o pânico me dominou.

-Eu… Fiquei com medo.

-Medo? – repeti, incrédula.

-Sim. Medo de que isso seja algo sério.

-Não estamos pisando em terreno seguro. – conclui.

-Deixou de ser seguro há décadas.

Finalmente entendi o que ele quis dizer. Aquilo era sério. Ele se levantou do sofá, e segurou meu rosto entre as mãos.

-Um ultimo beijo. – sussurrou ele. – Por favor.

Ele abriu os lábios lentamente contra os meus, e eu finalmente retribui o beijo. Um bolo formou-se em meu estomago, mas eu não liguei. Se esse ultimo beijo significasse por fim nossa despedida, eu aceitaria.

Acordei com a respiração ofegante, e Ben estava ao meu lado, cuidando de minha perna. Sorri para ele.

-Alguém aqui dormiu mal. – disse, observando suas profundas olheiras.

-Alguém ficou gritando a noite inteira. – disse ele sombrio.

-Desculpe. Não era minha intenção.

-Não faz mal.

Ele deu de ombros, e passou uma ultima fitinha branca em meu corte.

-Porque está fazendo isso? Porque está cuidando de mim? Nem nos conhecemos.

-Sim, nos conhecemos. Mais do que imagina.

-Você…

Fiquei muda. Eu nunca o tinha visto, em toda minha vida. Dimitri entrou na sala, e Ben saiu, nos deixando a sós. Dimitri fez aquela cara de “eu-sei-o-que-você-fez” e eu acabei contando tudo a ele. Contei do sonho, mas omiti a parte de nosso beijo, ou da marca de batom violeta na camisa dele.

-Oh, Anna…

Ele não precisava dizer nada. Eu já sabia. Ele lamentava tudo aquilo tanto quanto eu, talvez até mais. Esperei ele sair do quarto para começar a chorar novamente. Uma atitude fraca, eu sei, porem inevitável. Some a falta que faz pais presentes em sua vida, amigos que você julgava ter te abandonarem, todos os lugares para que você fugia acabarem, um lugar que você julgou ser uma casa acabar, e adicione a ausência de Thom. Isso foi o suficiente para me quebrar por completo por três dias. Não sai daquele quarto. Não deixei Sr. Jensen entrar, Ben trocar meus curativos, tampouco Dimitri falar comigo. Não comi, não bebi nada e me recusei a responder quando chamavam meu nome. Deixe eles pensarem que estou morta; o que de fato é verdade. Eu não sabia por quanto tempo poderia suportar aquilo. Na verdade, já estava suportando por tempo demais. Pensei em Pedro, antes dele nos trair. Pensei em como gostava de passar meu tempo com ele, ler poesias que costumava escrever em voz alta para ele. Uma parte de mim cogitou que talvez, somente talvez ele tivesse sido obrigado a juntar-se aos Marcados, pressionado com a promessa de morte. Não, isso não era possível. Pedro tinha ido de livre e espontânea vontade. Talvez ele sentisse remorso. Uma cena de seu corpo inerte em algum lugar frio e sombrio assombrou-me, e a cena de Marcados o torturando foi mais lucida do que qualquer outro pensamento. Mas isso levou-me a outras lembranças, a uma outra época, quando Thom fora torturado por Marcados. Thom. Tudo levava de volta a Thomaz Salazark. Toda aquela bagunça tinha começado com ele. Com nossos erros. E toda essa bagunça irá terminar com nós. Querendo ou não, vamos ser dois amantes azarados, quer eu aceite ou não essa maldição. Levantei-me mecanicamente e tomei um longo e demorado banho, gemendo de dor quando a água quente infiltrou-se no corte em minha perna. Nem a voz de Ian Curtis me acalmava. Todavia, eu não podia ficar trancada naquele quarto por muito tempo, como um ratinho trancafiado. Não, eu já tivera experiências de quase morte demais para uma garota de dezessete anos de idade. Vesti um jeans e uma jaqueta de couro que fora colocada do lado de fora da maçaneta de meu quarto, tirei os nós dos cabelos com os dedos e obriguei-me a seguir em frente.

Ah, se eu tivesse ficado trancafiada naquele pequeno quarto. Muitos pares de olhos me encararam. Não só Ben, Dimitri e Sr. Jensen, como também duas mulheres e três homens. Eles pareciam cansados, abatidos, e com vários ferimentos pelo corpo. Era principalmente naqueles momentos em que me lembrava que havia uma guerra – uma guerra imprevisível que eu estava tentando fugir – e agora estava bem diante de meu nariz.

-Bem, essa é a zumbi. – disse um dos homens. – Sou Holmes. Octavio. Joseph.

Os três homens sorriram, meio assustados. As duas mulheres pelo menos pareceram mais simpáticas ao estenderem as mãos pálidas e finas para mim.

-Sou Mina. – disse a de cabelos cor de fogo. – Essa é Vania.

Elas sorriram para mim. Tentei me colocar a par da situação. Eu estava presa no que parecia um grupo de rebeldes prontos e dispostos para ataca a Corte, a não ser que metade deles estavam feridos ou tornaram-se Marcados. Não estava necessariamente presa. Tinha o livre arbítrio de ir embora quando bem entendesse, ou desistir de qualquer outra coisa. Eles me explicaram que era a maior região de vampiros sobreviventes, e que agora estávamos pelo menos quarenta metros abaixo do solo.

-Preciso falar com Anna. – Disse Sr. Jensen.

Eu o segui por um corredor branco com luzes fluorescentes. Decidi acompanha-lo, mesmo com a sensação de ele fosse sacar uma espada e perfurar meus órgãos ali mesmo.

-Vamos direto ao assunto. – começou ele, sem rodeios. – Essas pessoas que você está vendo perderam familiares. Suas casas. Sua comida e bens preciosos. Perderam vidas enquanto você estava lá em cima, vendo a luz do sol e tentando fugir. Se estivesse no seu lugar, estaria envergonhado por abandonar meu povo quando ele mais precisou. Afinal de contas, você é uma criança, mas carrega o peso de seu sobrenome, ainda mais agora que a rainha foi Marcada. Então vou só lhe avisar uma vez. – ele limpou a garganta. – Você conhece a Corte. Tem espirito de líder apesar de toda essa arrogância. É melhor liderar toda essa população viva, ao contrario… Bem você sabe.

-Não, não sei Sr. Jensen.

-Bem vinda a guerra, Anna. Onde as pessoas que você mais ama morrem em apenas um segundo mal planejado.

-Não quero isso. Todos aqueles que amo foram tirados de mim de alguma maneira.

Sr. Jensen deu uma gargalhada histérica.

-Vou fingir que não ouvi isso. Ben! – gritou ele. – Mostre todo o local para ela. Dê a droga das instruções.

Ele saiu rispidamente, deixando-me sozinha com Ben e o peso do mundo em minhas costas. Ou eu liderava aquelas pessoas enfurecidas, ou eu seria executada. Tudo bem, não poderia esperar muita coisa mesmo. Mas o que eu não poderia era deixar na mão o meu povo. Ben mostrou-me apenas o necessário; o refeitório, meu alojamento, a base militar central, a base de armamento e a arena de treinamento. Deu-me um papel onde marcava onde deveria estar e um relógio de pulso, movido ao DNA, de modo que quando eu fizesse algo errado todos da base central saberiam. Ótimo, agora sou um esquilo preso com uma noz na patinha. Engoli meu jantar com receio. Apesar de ser uma simples sopa de batatas, aquilo me causava enjoo até a morte. Mas eu sabia que o pior estava por vir. Quase todos no Acampamento sabiam que eu havia chegado, e se não sabiam, iriam saber daqui a três segundos.

-Boa noite. – começou a gritar Sr. Jensen, e imediatamente todos se calaram.

Ele passou os horários de treinamento do dia seguinte, o numero de mortes, como estava as coisas na terra, e a seguir seus olhos pousaram em mim.

-Alguns de vocês sabem que Anna Van Der Laurvski está aqui. Mais uma atiradora, mais um corpo em combate. Deem as devidas recepções a ela, e a tratem com cortesia.

E foi só isso. Nenhuma exclamação de surpresa ou revolta. Somente o barulho das colheres nos pratos. Isso de certo modo era reconfortante. Subi para o meu quarto em questão de segundos, onde enfiei-me debaixo das cobertas e tateei no escuro o mapa que Marie me dera. O mapa que causou minha vinda para cá. Eu o abri lentamente, desfazendo o encantamento, mas nada foi encontrado nele. Era apenas um pergaminho, sujo, velho e amassado. Eu o amassei com força. Não tinha passado tudo aquilo que passei por causa de um pergaminho velho em branco, certo? Certo. Tinha quase perdido a vida por causa daquele papel idiota.

Dormir não ajudou muito. Sonhei com Thom sendo torturado inúmeras vezes por Marcados, depois uma imagem fantasmagórica de mim mesma tornando-me uma Marcada me fizeram saltar da cama e perder totalmente o sono. Esperei o dia amanhecer para falar com Dimitri.

-Acho que Marie não lhe daria um pergaminho velho a toa, Anna. – disse ele, observando o papel em branco. 

-Ah, acho que sim. – tirei uma mecha de cabelo de meus olhos. – Tentei de tudo, Dimitri. Desfiz e refiz o encantamento que coloquei milhares de vezes. Desfiz todos escudos possíveis. E nada. Estamos no escuro.

-Talvez Marie quisesse que você visse o mapa na hora certa.

-Essa é a hora certa, Dimitri! – falei, um pouco furiosa. – Olhe onde estamos! Olhe onde fomos parar!

-Anna, acalma-se. Ficar desse jeito não irá adiantar nada. Guarde o pergaminho, e prometo que vou achar um modo de decifra-lo.

Aceitei, um pouco magoada. Ser contrariada não esta na minha listinha de coisas que adoro ser. Decidi pular o café da manhã e fui direto para a área de treinamento. Foi fácil, para alguém que já participou de batalhas antes. Na verdade foi vergonhoso pelo fato que tive que treinar com crianças de dez a treze anos, por causa da minha estatura. Mas – graças a minha sorte – a Sra. Avox decidiu me colocar em um nível de treinamento superior, quando ficou claro que chamas e escaladas eram fáceis como respirar para mim. Desse modo, por ser tecnicamente inútil, matei a uma hora que tinha andando pelos corredores perdidos. Segui por diversas partes dele, de modo que conheci a lavanderia e uma escola local. Era como se fosse uma cidade no subterrâneo. Em que pontos chegamos. Até que senti o cheiro de álcool inundando minhas narinas. Li as letras em negrito à minha frente: “área hospitalar” e a ignorei. Segui em frente. Pena que tomei essa decisão. Homens e mulheres de todas as idades estavam mutilados, e com doenças de todos os tipos. O que mais partiu meu coração foi ver um homem, Mackenzie, sem os braços e pernas. Ele havia deixado a mulher morrer quando sua casa foi invadida por Marcados, mas conseguiu salvar os três filhos.

-Coisa importante, sabe. A vida. E a gente não dá valor para ela. – disse ele a mim.

Uma outra mulher me chamou a atenção. Estava magra até os ossos, e terrivelmente pálida. Ela me contou sua historia. Havia passado fome por muitos dias. Tentou sobreviver com uma maçã por três semanas. Alguns soldados rebeldes a encontraram perdida e inerte na floresta, e conseguiram fazer seu coração voltar a bater. Mas uma doença tomou conta dela, de modo que por mais comida que ela consumisse, sempre seu estomago a rejeitaria. Até água. Senti um embrulho formar-se em meu estomago. A enfermeira, uma mulher roliça se seus quarenta anos chamada Diana achou melhor que eu fosse embora, quando ficou clara a minha fraqueza. Fui cambaleando até o refeitório, onde Ben acenou para mim. Ele estava sentando com mais dois garotos de nossa idade, e uma garota um pouco mais velha do que eu. Segui com passos pesados até lá, parando para pegar a comida.

-E como foi o treinamento? – perguntou ele, sem maldade.

-Bem. – dei de ombros.

E isso foi tudo. Todas as tentativas de conversas que as pessoas tinham comigo eu simplesmente travava e as mandava para o inferno – figurativamente, claro. – mas mesmo assim foram agradáveis comigo. Descobri que a garota chamava-se Gabe, e namorava com o outro garoto, Darius. O outro garoto que estava com a gente chamava-se Lucas, e era tão calado que podia se passar por invisível.

-Anna, como é o mundo lá fora? – perguntou Gabe, me surpreendendo.

-Você nunca saiu daqui? – arregalei os olhos.

-Oh, não. Somos nascidos e criados aqui. É muito perigoso lá fora.

-Bem. – eu pigarreei. – É como aqui embaixo. Só que com um Sol de verdade, não artificial.

Lucas, o garoto calado, esboçou um sorriso.

-Sempre tive vontade de ir lá fora. – exclamou Darius.

-Vocês não podem ir? – perguntei.

-Não, só de formos designados a uma missão. Mas provavelmente tudo mundo morreria na primeira oportunidade, já que ficariam fascinados demais com um Sol de verdade. – completou Ben.

Todos na mesa riram, até que a sirene tocou e mais um treinamento me aguardava. Pelo menos me senti um pouco segura, já que todos praticavam comigo. Nosso grupo de treinamento era pequeno, no máximo umas quinze pessoas. Tudo o que guardei das apresentações foram uma garota loura de dreds, chamada Margareth, uma ruiva, chamada Octavia, e outra garota ruiva que tinha cara de castor. Eu estava até feliz, até ver quem daria aula para nós. Sr. Jensen.

-Corram quinze quilômetros sem parar pela arena, enquanto eu acerto as contas com a queridinha aqui. – ele apontou para mim.

Todos começaram a correr imediatamente, até que ele sentou-se ao meu lado e olhou-me de cima a baixo, como se eu fosse um problema.

-O que vamos fazer com você? – começou ele. – Quais suas habilidades?

-Meu elemento é Os 5…

-Não, não. Aqui não trabalhamos com Elementos. Esqueça deles. Mostre que você é capaz de arrancar os olhos de alguém com a força física.

Escalada? Esqueça. Arco e flecha? Esqueça. Equilíbrio? Até parece. Canoagem? Ok, vamos parar. Eu era uma completa inútil. Já estávamos no final do treinamento. Algumas pessoas que haviam me cumprimentado no almoço exibiram sorrisos encorajadores, enquanto outras davam risinhos.

-Vamos ter que encontrar alguma utilidade para você. – exclamou Sr. Jensen. – Não é possível que alguém sobreviva a base de Elementos.

-Consegui me cuidar perfeitamente por dezessete anos.

Ouvi uma espada cair na arena. Eu não estava pisando em terreno seguro. Algumas pessoas se mandaram da arena assim que viram o olhar furioso do Sr. Jensen sobre mim, outras ficaram, só por diversão.

-Então vamos lá. Treinamento intensivo. Mostre como chegou em perfeito estado aos dezessete anos, Anna.

Um bolo formou-se em minha garganta. A arena foi esvaziada. As pessoas que foram embora voltaram, trazendo outras. A seguir, uma pequena plateia me observava atentamente através do vidro que nos separava. Eu não estava equipada com absolutamente nada, e não podia usar meus poderes. Sr. Jensen deu um meio sorriso.

-Três. Dois. Que o treinamento comece. 


1 month ago | 30 April 2012 | 0 notes |

Fim da 1 temporada!  


1 month ago | 21 April 2012 | 0 notes |

Capitulo 39 

Tentei ignorar a dor em meu peito enquanto avançava pela estrada infinita e chuvosa, desejando voltar no tempo. Gostaria de poder refazer tudo, mas desta vez certo. Iria seguir caminhos que não me levassem a Academia Crawford, a Thom, Caleb, ou este mundo um tanto peculiar. Quando já estava longe o bastante da casa de Marie – a quem ainda tomava conta de meus pensamentos – parei em um pequeno hotel de beira de estrada, e me hospedei no quarto 15. Fiz o reconhecimento do local, e coloquei escudos ao redor não só de meu quarto, mas do hotel inteiro. Quando terminei, tomei um longo banho e joguei-me na cama grande e macia. Por um segundo tinha-me esquecido do papel que Marie havia me entregado, às pressas naquele mesmo dia. Senti alivio quando meus dedos roçaram no papel no bolso de minha calça jeans, e abri-o lentamente sob a luz fraca do abajur. Não fazia sentido. Era um mapa bem antigo, de algum lugar que eu não conhecia, mas sabia que não poderia ficar com ele por mais de 48 horas. Dobrei-o cuidadosamente e enfiei no bolso de meu jeans, fazendo um escudo magico a sua volta, de forma que ele só se revelasse com o toque de meu DNA. Aninhei-me na cama, certa de que poderia ter um sono tranquilo e agradável, mas como sempre, estava errada.

Eu estava em um jardim, cheio de tulipas e pétalas de rosas jogadas ao chão. Eu vestia um vestido de linho branco, com sapatilhas douradas. Meus cabelos – devo admitir – estavam do jeito que eu costumava os trançar, quando estudava na Academia Crawford ainda. Eu me sentia leve, segura e feliz. E nem sabia o porquê. Senti cheiro de torradas com geleia de morangos inundando o ar, e a seguir reconheci uma voz que há tempos havia esquecido (ou parte de mim ainda achava isso).

-Acho que estou melhor em materializar essas coisas. Você sabe. Sonhos e etc. – Thom sorriu, exibindo os dentes meio tortos que eu amara.

Uma onda de felicidades atravessou-me quando senti seus olhos verdes fitando-me daquele jeito bem Thom, como se nada tivesse acontecido entre nós. Sorri para ele, mas ao mesmo tempo lembrei-me do motivo de estarmos separados, e a raiva me inundou.

-Pare de invadir a droga de meus sonhos. – falei. – Vou desfazer o laço.

Ele deu dois passos pra trás, parecendo ofendido.

-Estava com saudade de você.

-Quem você pensa que é Thomaz? Você brigou comigo porque achou que beijei Caleb, depois surtou dizendo que estava cansado, e quando fui embora você não fez absolutamente nada. E agora diz que está com saudades?

Encarei-o furiosa. Ele passou as mãos pelos cabelos – que estavam tão longos que caiam pelos olhos – e puxou um fio solto de sua camisa de linho branco.

-Eu errei.

-Não me diga. – disse ironicamente.

-Anna, estamos vivendo tempos de guerra. Tive muitas perdas recentemente. Desculpe descontar tudo em você daquela maneira, mas não suportava a ideia de perdê-la.

-Me perder? Thom!

Avancei um passo, tentando ignorar a compaixão que tomou conta de mim quando vi seus olhos realmente. De repente, parecia besteira todos os últimos dias que havia se passado. Parecia que eu nunca tinha saído de perto dele. Era como se eu conservasse o sabor de seus beijos ainda em meus lábios.

-Eu erro. Você me perdoa. Eu erro novamente. E você sempre me perdoa. É um ciclo viçoso. – ele riu. – Apesar de tudo…

-Pare. – estendi as mãos. – Estamos no meio de uma guerra. E caso você não percebeu eu perdi todos aqueles que já amei.

Ele prendeu a respiração por um segundo, e seus olhos arregalaram-se.

-Qual o problema? – perguntei.

Thom estava paralisado.

-Anna, acorde. – disse ele.

-O que?

-Acorde! AGORA!

Abri os olhos em um rompante, bem na hora em que ouvi alguém gritar “ar” e em um segundo meus pulmões comprimiram-se, e eu não conseguia mais respirar.

-Dei-me o mapa.

Um homem com um capuz preto rosnou para mim, e seus capangas incrivelmente maiores que ele mesmo lançou-me um olhar amedrontador.

-Que mapa? – consegui dizer.

Minha garganta fechou-se mais rápido que eu imaginava, e o ar esvaziou-se de meu pulmão. Alguém ali não era um Marcado, e provavelmente era o homem louro de capuz que estava brincando de me torturar.

-Não estou para brincadeiras, garota estupida. – disse ele. - Foster, Fred, peguem essa princesinha e vamos leva-la ao mestre.

-Não! – consegui gritar, cuspindo uma grande quantidade de sangue.

-Então me dê o mapa. – ele sorriu maliciosamente, mostrando os dentes podres e tortos. Eu fiquei em silencio. – ÁGUA!

Então eu me afoguei. Tossi inutilmente tentando limpar a água de meus pulmões, e a cada milésimo aquilo só piorava. Eu sabia que poderia lutar contra aquilo, se me sentisse calma o suficiente para lançar um contra feitiço ou algo do tipo. Concentrei-me em fogo. Concentrei-me naquele homem pegando fogo, e seus cabelos louros ficando chamuscados.

-FOGO! – eu gritei, com toda a força que consegui.

Um circulo de fogo surgiu a minha volta, e aqueles homens deram dez passos para trás. O homem louro bateu palmas, sorrindo.

-Magnifico! – disse ele, ultrapassando o fogo e chegando cada vez mais perto de mim. – Qual seu elemento?

Meu corpo inteiro congelou. Eu não me atreveria a contar.

-TERRA! – eu gritei, e o chão tremeu sob nossos pés.

-Deve ser Os 4 Elementos, chefe.

-Quieto Foster! Não tenho tempo para nada disso…

Engoli o choro duas vezes. Eu sabia que nenhum feitiço que eu pudesse fazer daria certo. Eram três contra uma. Dois marcados e um vampiro que também possuía Os 4 Elementos. Me lembrei do encantamento básico em meu mapa – que estava no bolso de trás de meu jeans – e de alguma forma aquilo me ajudou a permanecer tranquila. Eu não iria entrega-lo para ninguém, mesmo que isso significasse minha morte.  O homem louro aproximou-se de mim, e suas mãos fecharam-se ao redor de meu pescoço. Ele gritou “ar” mais uma vez, e uma dor agoniante tomou conta de mim. Eu finalmente parei de lutar e deixei que meus olhos se fechassem, tornando tudo breu.

 

 

-Sr. J, olhe só para ela. Não irá acordar nunca.

-Ben, por favor. Ela lançou ótimos contra feitiços. Nem Edward conseguiu realizar aquele feitiço do Circulo de Fogo na Academia Crawford.

-Mas…

-Ben, não vou voltar a dizer. Sinto que Anna está voltando aos poucos. Os encantamentos de cura deram certo?

-Sim, Sr. J.

Abri os olhos, e a luz de um abajur ao meu lado cegou-me. Sentei-me meio confusa, sentindo e ouvindo coisas demais. Eu conseguia ouvir perfeitamente a batida compassada de dois corações batendo ao meu redor, e pude contar o intervalo de respiração de duas pessoas. Levei as mãos à cabeça, como se minha dor fosse diminuir, e senti o gosto de sangue em minha boca. Minha perna doía como se pequenos alfinetes tivessem entrado e se alojado em minha pele, e minhas costelas doíam cada vez que eu tentava respirar.

-Se fosse você não me levantaria tão cedo.

Um garoto estava sentado ao meu lado, me observando. Levantei-me em um rompante, e só tive tempo de gritar de dor a plenos pulmões antes de todo o sangue em minha perna voltar a jorrar sobre o curativo. O garoto pegou-me pelos cotovelos, e eu esquivei, relutante. “Deixe de ser boba” ouvi ele sussurrar, mas não iria perder minha pouca paciência com ele. O garoto me deitou de novo na cama, e jogou um paninho umedecido em cima de minha perna.

-Isso aqui tá um horror. – ele fez uma careta. – Bah. Odeio cortes e queimaduras.

Eu o fitei incrédula. Onde eu estava? Quem era ele? Tudo aconteceu muito rápido. Levantei as mãos ao tempo em que elas pegaram fogo. Ouvi uma risada. Depois uma gargalhada do próprio garoto.

-Isso é algum tipo de tortura? – disse em um sussurro.

-Não seja tola. – rebateu ele.

-Então me mate logo e pare com esses jogos. Se você está com aquele homem louro, Foster e Fred…

-Se eu estivesse com eles não iria curar sua perna, obviamente. – ele sorriu.

-Como posso saber se você não está me jogando uma maldição?

O garoto passou as mãos pelos cabelos ruivos e fartos. Suas sardas ficaram mais visíveis quando ele virou-se para mim contraindo os lábios, e olhou-me fixamente com aqueles olhos de ouro liquido.

-Odeio sua falta de confiança e otimismo, Anna. Mas você pode confiar em mim.

-Não tenho tanta certeza. – rosnei.

-Então acho que posso tirar suas duvidas agora.

A porta do pequeno quarto se abriu, e justamente a pessoa que eu menos esperava ver abriu um grande sorriso quando me viu. Os cabelos estavam brancos e penteados para trás, e a barba branca já estava no meio de seu pescoço. Senti meu corpo inteiro se aquecer por dentro, e senti alivio também.

-Dimitri! – gritei, estendendo os braços.

Ele me abraçou, demonstrando muito mais alivio ao me ver do que eu demonstrei. Dimitri puxou uma cadeira e sentou-se do meu lado, ainda segurando minhas pequenas mãos envoltas nas suas.

-Anna, como você cresceu. – ele sorriu, maravilhado. – Como se sente?

-Acho que bem. – sequei uma lagrima antes que ela caísse.

-Isso muda as coisas, sabe. Pensei que você fosse enfiar os dedos nos olhos de Ben.

-Também pensei isso, Sr. D. – disse o garoto ruivo rindo.

Eu também estava rindo, mas parei quando notei uma figura envolta as sombras do corredor. A figura aproximou-se, e se revelou um homem de cabelos pretos e crespos, e olhos perturbadoramente familiares. Talvez pelo fato de serem iguais os meus – o mesmo breu em contraste com a pupila branca – ou a sensação que eu já tivesse o visto em algum sonho distante.    

-Sr. J, não pensei que fosse tão difícil cuidar dos ferimentos… – a voz de Ben foi diminuindo, até ficar um sussurro.

-Anna – disse Dimitri mais sério que o normal – Este homem é Jensen Swecheer.

-O que o senhor me falou na carta. – conclui.

-Sim, eu mesmo. – disse o homem friamente. – Muito bom vê-la viva.

Sr. Jensen estendeu a mão para mim. Eu a peguei. Uma expressão estranha passou pelo seu rosto, como se a mascara de gelo se desfizesse por alguns instantes, mas logo depois sua expressão fria e vazia voltou.

-Sinto muito pelo transtorno que minha carta lhe causou, Anna. – disse Dimitri.

-Mas como…

-Eu vejo e sinto tudo. – ele deu uma piscadela. – Acho que alguém aqui esta faminta.

Ele se levantou e voltou com uma tigela com algum caldo fumegante e meio amarelado. Agradeci por ter alguma coisa quente para segurar, e tomei um gole. Reconheci o sabor de batatas, e dei um outro longo gole, satisfeita por não ter gosto de hambúrgueres.

-Como esta o ferimento, Ben? – perguntou Dimitri.

Por um segundo eu havia me esquecido completamente da dor que senti segundos antes na perna, mas quando Ben levantou meu jeans e vi o quão feio estava. Fiz uma careta quando encarei minha panturrilha em carne viva, com um longo e profundo corte jorrando sangue.

-Nunca pensei que tivesse tanto sangue. – falei entredentes. Isso arrancou um sorriso se Ben.

-Não entendo. Anna, você é uma ótima curandeira. Tem sangue humano correndo nas veias. Pertence aos 5 Elementos. É tecnicamente impossível que um corte como esse não se cure rapidamente. – Dimitri levantou-se apressado. – Não é possível! Até mesmo para um vampiro, esse corte se cicatrizaria há três segundos atrás!

-Dimitri, acalme-se. – Sr. Jensen chegou perto de mim, e entendi o recado mutuo que seus olhos me transmitiram. Era ele quem estava no comando a partir de agora. – Deixou de caçar?

-Não. – respondi rispidamente.

-Tentou algum feitiço mal planejado para ser humana?

-Não. Alias, pra que eu faria isso?

-Quem faz as perguntas aqui sou eu, mocinha. – disse ele. – Para morrer mais rápido. Você deveria saber, já que foi o que sua mamãezinha fez. Foi o que Lucy, aquela fraca, fez.

-Não insulte minha mãe! – gritei, exasperada.

Sr. Jensen levou um charuto cubano aos lábios.

-Temos que acabar com esse maldito laço.

Paralisei. Ninguém ali sabia que eu compartilhara um laço com Thom. Nem mesmo Dimitri. Aquele era meu único ponto fraco – não de fato o laço, mas a pessoa com quem eu o compartilhava – e agora o homem que nesse instante eu destetava mais que tudo sabia.

-Laço? – repetiu Dimitri.

-Não seja tolo, Dimitri, por favor. – rosnou Sr. Jensen.

Ele posou os olhos caramelos bondosos em mim, como se entendesse o que eu havia feito no ano passado, em pleno ato de desespero. Para Dimitri, a salvação de Thom foi como um milagre. Ninguém poderia ter sobrevivido depois de todos aqueles dias sendo torturado por Marcados, mas Thom sobreviveu. Somente eu e ele sabíamos do laço que compartilhávamos, e no entanto agora a única doce lembrança que ainda restava de nós foi-se por água abaixo.

-Acho que Thomaz Salazark deve estar passando por maus bocados então. – disse por fim Sr. Jensen, saindo da sala.

Ben balançou a cabeça, surpreendentemente chocado saiu do quarto, encostando a porta atrás dele.

-Anna, o que foi que você fez, minha querida?

Dimitri pressionou as têmporas com o polegar, como se evitasse chorar.

-Isso não é tão ruim. – sussurrei. – Estava sem escolha. Não poderia deixa-lo ir, entende?

-Querida, você sacrificou tudo a toa. Olhe para o presente. Não estamos vendo o Sr. Salazark aqui.

Aquilo foi como um balde de água fria. Eu nunca parei para pensar se o que havia feito – trazer Thom de volta para o mundo real, e torna-lo um Beijado pela Morte – fosse certo ou errado. Sempre tive certeza absoluta que tudo o que havia feito foi valido, mesmo depois de todas nossas brigas e separações. Uma parte de mim sabia que era impossível ficar longe dele. Era improvável ter uma vida sem ele. Não pelo fato de que eu o amava mais do que sempre imaginei, mas pelo fato que aquilo estava me enlouquecendo. Ficar longe dele daquela maneira estava me matando.

-Eu faria tudo novamente, Dimitri. – disse com veemência.

-Eu sei Anna, acredite, eu sei. Mas nunca pensou nas consequências?

Franzi a testa, totalmente perdia em suas palavras.

-Consequências?

-Oh, Anna.

Dimitri parecia estar à beira de um ataque de nervos. Andava de um lado para o outro, dividido entre a raiva e a dor. Ele serviu-se de um copo de vinho e voltou a sentar-se ao meu lado, a expressão visivelmente mais carrancuda que o normal.

-Você sabe que não devemos mudar o curso da vida. – começou ele. – Sei que se encontrou com Marie. E sei o que ela lhe falou. Você é Thomaz Salazark foram nascidos para morrer, isso está correto. Mas tudo tomou um outro rumo quando você o trouxe de volta do Mundo dos Mortos. Modificou não só a alma dele, mas a sua também. Modificou de tal maneira que… Anna, as coisas saíram do controle. Se desse certo trazer as pessoas mortas para a vida, não acha que seus pais e de Thomaz estariam vivos? Sei que tudo o que você fez foi por amor, mas isso afetou a todos significativamente. Sim, a guerra que está acontecendo nesse exato momento é maior do que você, mas isso não significa que você não seja parte dela. 


1 month ago | 21 April 2012 | 0 notes |

Anonymous asked:
oi, td bem? olha gosto mt da web, mt mesmo, mas pf, não separa o thom e a anna :/

olá, sim, e você? 

obrigada por gostar, deveria vir sem o anonimo pra gente trocar uma ideia haha sobre o Thom e a Anna, o final ainda não está pronto, muhahaha 


2 months ago | 26 March 2012 | 0 notes |

Anonymous asked:
qual seu escritor favorito?

Carlos Ruiz Zafrón (: 


2 months ago | 26 March 2012 | 0 notes |